É fim de tarde na Universidade, o céu tem um tom alaranjado furioso e o ar está quente, muito quente, empenhado em ser quente. Essa semana tem um evento no departamento, um pessoal bem vestido que se aglomera ao redor do bloco... Certamente estão derretendo. Sim, definitivamente, estamos.
A mestra generosa que ainda me inicia na ciência sempre me preveniu: o trabalho do pesquisador, mesmo o do pesquisador experiente, é predominantemente feito em solitude, na companhia do computador e de alguns autores mortos. Mal sabe ela o quanto isso me é confortante, realmente. A academia, porém, tem das suas: ela quer muito colocar o garoto tímido e órfão do Ensino Médio diante de uma série de faces ameaçadoras com sobrancelhas impacientes. Os minutos se arrastam no corredor cor de terracota em que espero a hora de entrar na sala. Na bolsa, o computador que guarda minha crucial apresentação em power point deve estar se sentindo pressionadíssimo, uma pilha de nervos. A sensação que eu tenho – e essa é uma suspeita séria – é a de que o metal gelado desses circunspectos aparelhinhos começa a demonstrar sinais de ansiedade e confusão psicológica, tão tipicamente humanos, sempre que precisamos muito que eles funcionem direito. Por via das dúvidas, tento agir diminuindo os riscos: infinita coleção de pendrives fora recrutada e está atenta a chamados por reforço. É, eu sou um comunicador preparado, sou um comunicador preparado, um comunicador preparado, respira, expira, calma, um comunicador preparado… O mantra parece tomar conta do ambiente.
Não conheço mais ninguém do modesto segundo ano da graduação que apresentará trabalhos hoje (sendo sincero contigo, não conheço quase ninguém de maneira geral; é preocupante, sei disso, sei disso). Às vezes, porém, vejo surgir pelas escadas alguém com aquela expressão característica de quem está fingindo tranquilidade num esforço gutural, a camisa de botão bem passadinha que jamais tinha visitado o campus e as pernas inquietas por terem chegado cedo demais. A identificação é imediata, mútua, surpreendentemente calmante e nós nos cumprimentamos de longe com um risinho nervoso.
Diante de mim, um agitado monitor de colete azul abre a porta pela qual devo entrar. Ele é graduando como eu, certamente, mas me trata com polidez esforçada graças à pasta que me identifica como um dos participantes. Procuro agradecer de maneira enfática, mostrando estar encabulado; realmente, eu não devia ser alvo da preocupação e dedicação dos coletes azuis. Sinceramente, quero renunciar logo a pasta, a pesquisa, a participação e o figurino engomadinho. Me vejo irrompendo pela porta, mas me mantenho ali, bravamente acovardado. Encolhido numa das cadeiras do fundo, arrasto adiante o cômico (pra não dizer ridículo) drama da pré-apresentação. Hei, não me julgue tanto assim, viu; pro coitado do apresentador de primeira viagem as coisas triplicam de tamanho.
Depois de alguns (vários) minutos de embate entre dois dos monitores do colete azul e um irredutível aparelho de datashow, o coordenador inicia as falas. Meu nome é o primeiríssimo a ser chamado (ah, esses momentos de pânico social nunca deixam de ser irônicos conosco). Coração na boca, a voz sai baixa e, imagino, muito constrangedora pra quem ouve. Por fim, colega, digo com orgulho que minha apresentação aconteceu dentro do esperado: foi majestosamente mediana, com gaguejadas aqui e ali e confusões pontuais resolvidas pela complacência dos mais experientes. Eu sei, eu sei, foi tudo muito modesto, mas não vou negar que fiquei profundamente satisfeito.
E você, excelente colega? Vejo que já quase não consegue esconder a frustração com o final muito medíocre dessa crônica amadora. Realmente, ninguém pode tirar sua razão, mas, se te agrada, posso tentar dar uma enfeitada filosófica nesse parágrafo derradeiro: F.A.L.E., parceiro, pois há de se falar, há muito de se falar. Há de se falar, mesmo gaguejando, e há de se falar agora. Há de se pensar e de se argumentar em alto e bom som, mesmo que o som seja novíssimo e inseguro. Os tijolinhos dessas paredes velhas permanecerão aqui por muito tempo, mas as vozes mudam, se renovam, se transformam, pois são vivas. Seja uma voz, FALE.
Lorena Martins