“Uma das formas de pensar a decolonialidade e de atuar nessa perspectiva é confrontar e questionar as ideologias linguísticas que circulam e que se vinculam a hierarquias raciais”
Nívea Rohling é Professora Associada III da UTFPR/Curitiba, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (PPGEL) e da Graduação em Letras da UTFPR. Graduada em Letras pela UNIVILLE, fez Mestrado e Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSC. Realizou estágio pós-doutoral na Facultade de Filoloxía e Tradución na Universidade Vigo/Galícia/Espanha. É líder-fundadora do Grupo de Pesquisa em Linguística Aplicada (GRUPLA), membra da Associação de Linguística Aplicada do Brasil (ALAB) e da Associação Latino-Americana de Estudos do Discurso (ALED). Organizou recentemente o livro Ideologias linguísticas e (des)colonialidade da linguagem: diálogos emergentes (2024), publicado pela Editora Pontes. É também autora de diversos artigos e capítulos de livros na área de Linguística Aplicada e do Discurso, com ênfase na perspectiva dialógica da linguagem. Em 12/11/2025, o O Consoante realizou entrevista-aula com a Profª Drª Nívea Rohling, intitulada Ideologias de linguagens, descolonialidade e ensino de línguas, promovendo uma discussão sobre ideologia, ideologias linguísticas e descolonialidade da linguagem e como esses conceitos se interrelacionam. A entrevista-aula foi planejada e executada, nas diferentes etapas, pelos alunos do 3° ano do curso de Letras-Português, da Universidade Estadual de Maringá, na disciplina “Práticas de Extensão em Estudos Linguísticos: Texto, Produção e Divulgação”.
por Ana Carolina Polizeli Rodrigues, Danilo Pereira de Castro, Dayane Carbone Nunes, Eduardo do Amaral Granado, Fernanda Dulo Lima, Heloísa Pinto da Silva, Juan Carlos Silva de Melo, Julia dos Santos Antonio Botelho, Lorenna Domingues Francelino, Maria Clara Mantovani Lopes, Maria Eduarda Santos Marques, Marina Martins Barbosa, Sabrina Kethelyn Lopes da Silva, Thaís Marins Teixeira (alunas e alunos do 3º ano Português/UEM) e Neil Franco (DTL-PLE/UEM)
O Consoante: O tema ideologia linguística começa a ganhar espaço nas discussões acadêmicas, mas ainda circunscrito ao universo da pesquisa e da pós-graduação. Qual foi a sua motivação para que se debruçasse sobre esse tema? E o que é ideologia linguística e como ela pode ser considerada uma categoria para pensar as questões de linguagem?
Nívea Rohling: Meu interesse pelo tema surgiu a partir de minhas leituras sobre descolonialidade, lendo as mulheres do feminismo negro decolonial, e, a partir daí, entrei na questão das ideologias linguísticas. De modo que o conceito de ideologia linguística está ligado a esse movimento decolonial. Um dos elementos aqui é a decolonialidade; é pensar como a ideologia linguística faz parte desse movimento que estamos discutindo. É importante pensar nesses movimentos que temos visto de decolonizar espaços públicos. Estamos vivenciando o questionamento de monumentos aos escravocratas e a proposta de outros monumentos a fim de homenagear, por exemplo, escritoras e intelectuais negras como é o caso de Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez. Lembro agora daquele evento em que queimaram a estátua do Borba Gato. Todo mundo ficou se perguntando: “Mas quem foi Borba Gato?”, e começaram a investigar essa questão do papel dos bandeirantes na relação com o genocídio indígena. Esse movimento questionador está acontecendo no Brasil lá fora também. Estamos presenciando também, por exemplo, a exigência de reparações históricas. Não só decolonizar, mas reparar. Esses tempos, li uma notícia que falava que os chilenos estão reivindicando o Moai, monumento retirado da Ilha de Páscoa pelos colonizadores e que está no museu Britânico de Londres. Na universidade também está acontecendo isso. Nós estamos pensando em como podemos decolonizar o conhecimento a partir de várias questões aparentemente simples: desde políticas de citação (citar autores e autoras do Sul global), a vivência e produção coletiva do conhecimento e o diálogo com outros espaços de produção de saberes para além da universidade, reconhecendo que existem outros espaços que produzem conhecimento igualmente válidos e potentes. Assim, há socialmente, uma discussão sobre colonialidade e modos de decolonizar práticas sociais, de fazer outros movimentos epistemológicos. Em suma, me interessei pela questão das ideologias linguísticas a partir das discussões sobre decolonialidade, especialmente ao ler o movimento decolonial do feminismo negro. Nesse contexto, destaco autoras como Bell Hooks, Silvia Cusicanqui, Lélia Gonzalez, Françoise Vergès e Grada Kilomba, todas de grande relevância. A partir de Lélia Gonzalez podemos dizer que o pretoguês é uma ideologia linguística que põe em relevo a proposta decolonziar a linguagem, as práticas culturais e considerar outros repertórios. Esse processo também envolve decolonizar as escolas e as práticas educativas, refletindo sobre como podemos pensar tais questões a partir da legislação e das temáticas voltadas às relações étnico-raciais no espaço escolar. Trata-se, portanto, de um movimento bastante amplo. Chegamos, então, ao ponto que nos interessa nesta entrevista-aula: a necessidade de decolonizar a língua e seus usos. E como podemos decolonizar a língua? Lembro de uma fala da escritora moçambicana Paulina Chiziane, que recebeu o Prêmio Camões em 2021. Ela afirma que “a língua portuguesa precisa de tratamento de descolonização”. Utiliza esse termo para discutir, por exemplo, palavras como patriarcado, frequentemente definidas como “costume tribal africano”, em contraposição à figura heroíca dos patriarcas. Chiziane propõe, assim, uma reflexão crítica sobre a própria língua. Trago para essa conversa Nêgo Bispo, em A terra dá, a terra quer, ao discutir formas de descolonizar a língua. Ele adota o termo contra-colonial, distinguindo-o de decolonial e descolonial. Em um trecho que considero fundamental para pensarmos essa questão, ele relata: “Certa vez fui questionado por um pesquisador de Cabo Verde: como podemos contra-colonizar a língua do inimigo? E respondi: vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las; e vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer ‘desenvolvimento’, nós vamos dizer que envolvimento se desconecta, porque desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus pandêmico e vamos atacar a palavra desenvolvimento, porque a palavra boa é envolvimento.” A partir dessa fala de Nêgo Bispo e das reflexões sobre o decolonial e o contra-colonial, considero que uma das formas de pensar a decolonialidade e de atuar nessa perspectiva é confrontar e questionar as ideologias linguísticas que circulam e que se vinculam a hierarquias raciais. Foi nesse ponto que surgiu meu interesse pelo estudo das ideologias linguísticas. Passemos, então, aos conceitos! O conceito de ideologia linguística já constitui um campo consolidado de pesquisa fora do Brasil. É importante lembrar que, sobretudo na Europa, áreas como a sociolinguística crítica e a antropologia linguística desenvolvem trabalhos muito próximos aos da Linguística Aplicada no Brasil, com grande afinidade epistemológica. Durante meu pós-doutorado em Sociolinguística, encontrei diversas referências que partilhávamos e com as quais mantínhamos convergência teórica. Sobre o conceito de ideologias linguísticas, é preciso mencionar o texto pioneiro de Michael Silverstein, “Language structure and linguistic ideology”, publicado em 1979. Como é importante mencionar os trabalhos de Jan Blommaert, Judith Irvine, Kathryn Woolard, Paul V. Kroskrity, Bambi Schieffelin e Susan Gal. No Brasil, também já temos trabalhos sendo desenvolvidos no campo da Linguística Aplicada Crítica. É preciso destacar um marco importante – a publicação do livro “Português no século XXI”, organizado por Luiz Paulo da Moita-Lopes em 2013 e de lá para cá vem crescendo o interesse no tema/campo. Mas afinal o que seriam as ideologias linguísticas? Que categoria é essa? Para fins de conceituação, recorro a citações do Kroskrity (2012): ideologias linguísticas são “representações, sejam explícitas ou implícitas, interpretam a relação entre língua e seres humanos no mundo social”. Em outra citação, o autor afirma que “crenças, sentimentos sobre as línguas e como elas são usadas no mundo social, são múltiplas, construídas a partir de perspectivas históricas, políticas, econômicas, e que influenciam as ideias sobre a língua”. Del Valle e o Meirinho (2016) também vão dizer, que as ideologias linguísticas “atendem interesses sociais e têm efeito naturalizador, acabam por ser verdades inquestionáveis”. Aqui entra a ideia, a relação de linguagem e poder. Acabamos, às vezes, não questionando as ideologias linguísticas. Elas são aceitas como verdades! E aí vocês podem perguntar: “quem produz ideologia linguística?” Todos e todas nós produzimos ideologias linguísticas. Falantes, professores/as, linguistas, gramáticos, jornalistas, produtores/as de material didático, pessoas que pensam as políticas de línguas. A Base Nacional Comum Curricular, por exemplo, que é o documento que rege o ensino no país, tem uma concepção (e ideias) sobre a língua. Então é importante questionar quais são as ideologias linguísticas que produzimos no mundo social, como falantes, professores/as, pesquisadores e pesquisadoras e com as quais lidamos em nossos espaços de trabalho e de convívio social. Isso é importante para a vida, para a escola, para o ensino de línguas etc. Nesse sentido, é uma área profícua para discutir sobre como a gente pensa e discursiviza a língua e os falantes. Quero ressaltar também que minha pesquisa sobre ideologias linguísticas é situada na perspectiva discursiva, tentando relacionar ideologias linguísticas à concepção de dialogismo e de ideologia do Círculo de Bakhtin.
OC: O seu texto, com o título “Ideologias Linguísticas e Identitárias no Contexto Multilingüe da Galícia”, que você chama de capítulo relato, é resultado da sua experiência no contexto de multilinguismo daquela região da Espanha. O que você pode nos contar sobre essa sua experiência?
NR: Estive na Galícia de 2023 a 2024, em um pós-doutorado, com objetivo de estudar contextos multilingues, espaços de conflitos linguísticos, pensar essas questões ligadas à colonialidade/decolonialidade. Inicialmente considerei desenvolver a pesquisa no Chile, no México ou na Espanha, mas como chegou primeiro a carta de aceite da Espanha, fui para a Galícia. Me encantei pela singularidade linguística dessa comunidade. Aprendi muitas coisas sobre línguas, sobre consciência linguística e sobre métodos de pesquisa. Dessa experiência resultou a organização do livro, “Ideologias Linguísticas e (Des)colonialidade da Linguagem: Diálogos Emergentes” pela Editora Pontes. Esse livro é prefaciado pelo Luiz Paulo da Moita Lopes e conta com escritas de colegas que eu fui encontrando nesse percurso. Na Galícia, especificamente, e que podemos aplicar a outros contextos de multilinguismo, aprendi muito sobre as disputas, conflitos político-ideológicos em torno da língua. E essas forças — como propõe Bakhtin — são forças centrípetas e centrífugas, forças que tentam centralizar e forças que tendem a descentralizar. Bakhtin no texto “O Discurso no Romance” já estava falando de multilinguismo, plurilinguismo, ou seja, antecipa pressupostos da sociolinguística em muito tempo, quando fala de formas de variação de língua, de aspectos que produzem variação e a heterogeneidade na língua, e que a língua é multi, heterodiscursiva e pluridiscursiva. Esse contexto plurilinguístico de que fala Bakhtin descreve a Galícia. O que o Galego tem a ver conosco no Brasil? A língua portuguesa vem do Galego, então temos aí um pertencimento. A Galícia é uma das 17 comunidades da Espanha. Algumas delas são bilíngues e têm co-oficialidade. Há cinco línguas oficiais: o castelhano, o galego, o basco, o catalão e o aranês. Então, como tem co-oficialidade de línguas, há muitas pesquisas em sociolinguística crítica, há um embate intenso em relação às línguas, ao ensino de línguas na escola, à identidade e pertencimento. Em Galícia, se a pessoa fala galego, já sabemos que a pessoa tem uma posição linguística e identitária bem marcada. Em suma, foi uma experiência riquíssima e destaco que, no contexto multilingue e de conflito linguístico, as pessoas estão mais atentas à linguagem, ao seu uso. Parece haver uma consciência/sensibilidade no nível metapragmático ativada o tempo todo. Isso ocorre não só na Galícia. Podemos pensar nas regiões de fronteira aqui no Brasil, as nossas comunidades que também são multilingues, com línguas indígenas, línguas de colonização, línguas de herança e por aí vai. Quero citar uma parte de um texto do meu colega Daniel Amarelo — galego e sociolinguista. Ele descreve Galícia do seguinte modo: Galícia é um espaço material e cultural caracterizado por diversas ideologias sobre o que é e como se faz, como se fala e como é ser galego. E não é só falar, é falar e é ser galego. E isso se dá em negação, oposição, intersecção, conivência, fusão, reverência aos valores associados ao espanhol, ao inglês, ao rural, ao urbano, ao global marcado, não marcado, e de forma relacionada com a sociolinguística da vida cotidiana (Amarelo, xxx). As pessoas estão inseridas em contextos multilingues. Essa questão metapragmática de falar uma língua ou outra, uma variante, porque também não se fala só o galego. O Galego também tem variedades. Ele também vai falar o espanhol com outra variedade, que é diferente do espanhol que se fala em Madrid. Então, você vai andar pela Espanha e você vai ter espanhol muito diferente, como é o Brasil, como se dá com a língua portuguesa. E tem valor e tem ideologias de linguagem envolvidas. Qual língua é melhor? Aqui a gente tem essa mania de dizer que no sul e sudeste se fala melhor o português. E lá, para Madrid, o castelhano melhor falado é deles. Enfim, o que aprendi sobre essa consciência discursivo-pragmática é que se produzem muitas ideologias de linguagem nos espaços interacionais comunicativos marcados pelo multilinguismo. Porém, não significa que não se produza em outros lugares. No Brasil, por exemplo, nós temos uma ideologia monolíngue. Construiu-se no Brasil uma ideologia monolíngue em que só falamos o português, mesmo em face à diversidade linguística que temos no Brasil. Aprendi também muito sobre metodologia de pesquisa em contextos multilíngues. No capítulo-relato, intitulado: “Ideologias Linguísticas e Identitárias no Contexto Multilingüe da Galícia”, trabalhei, por exemplo, com biografias linguísticas, uma metodologia, advinda da sociolinguística crítica, em que as pessoas narram suas relações com a língua em contexto multilíngue, fazendo emergir diversos atravessamentos identitários que orbitam as relações sujeito – língua. As biografias linguísticas são potentes também para a pesquisa em contextos de migração, por exemplo.
OC: Ainda sobre o capítulo-relato, como você entende o papel das ideologias linguísticas na valorização ou desvalorização de uma língua dentro de um mesmo território, como ocorre entre o galego e o castelhano? E de que forma essa percepção de prestígio pode influenciar as identidades linguísticas e culturais de uma comunidade?
NR: O papel das ideologias linguísticas é central, uma vez que elas materializam, a própria valoração sobre as línguas. E esse valor não é só para a língua, é para o falante. É para esse corpo, que é engendrado, racializado e enquadrado em determinada classe social. Portanto, como nos lembra a linguista Joana Plaza Pinto, as ideologias linguísticas produzem hierarquias raciais dos sujeitos que falam. No caso do galego, falando um pouquinho do capítulo que escrevi, é uma língua em processo de substituição linguística pelo castelhano. A própria participante da minha pesquisa relata que foi concedido um valor depreciativo a ela como falante porque o galego era visto como a língua do campo, de pessoas pouco letradas, das pessoas dos pueblos. Já o castelhano, era a língua da atividade profissional e acadêmica. Isso tem a ver com que o linguista Jan Blommaert discute sobre a construção de escalas de valor em torno da língua. Há línguas para o ambiente doméstico, línguas da comunidade, línguas do comércio, línguas da ciência, que geram também qualificação avaliativa sobre os falantes, em outras palavras, as ideologias linguísticas produzem efeitos reais na vida das pessoas. A crença de que uma língua é superior a outra constrói essa estratificação social da língua, produzindo desigualdades. As línguas mais valoradas são vistas como superiores, o que acontece com o inglês hoje, enquanto o que aconteceu com as línguas em situação colonial foi a substituição. Assim, vemos circular ideologias linguísticas, produzidas no pensamento colonial, sobre línguas minoritárias como, por exemplo, “ah, é que elas têm uma gramática deficiente, não têm dicionário, elas são mais simples”. Em resumo, as ideologias linguísticas vão produzindo valoração sobre línguas, falantes, corpos a partir de uma clivagem racial, engendrada e classista, construída em uma matriz colonial. Por outro lado, preciso dizer que há processos de substituição, mas também há processos de revitalização de línguas. O sociolinguista Fernando Ramalho, supervisor do meu trabalho de pós-doc, propôs a categoria neofalantismo. Ele observou que há grupos de pessoas que se tornam neofalantes do galego. Geralmente, jovens e universitários por uma decisão epsitemológica e política. Ou seja, decidiram falar e se identificar como galego, embora tenham sido falantes de castelhano desde criança. No Brasil também há um processo de revitalização em línguas indígenas; há muitos jovens interessados e reivindicam o bilinguismo em espaços formativos para preservação cultural de sua ancestralidade. É um movimento muito heterogêneo em que valorização e desvalorização linguística e identitária se tensionam. Trago um exemplo desse tensionamento linguístico e identitário. O recém eleito prefeito de Nova York, Zohran Mandami produz um vídeo em sua campanha falando em espanhol. Nesse enunciado ele se identifica do seguinte modo: “Sou imigrante como você. Sou socialista. Sou muçulmano.”. Ele traz a língua para o centro. Trata-se de uma dimensão interseccional, de uma hierarquia racial em jogo junto com a língua. A consciência das ideologias linguísticas orienta sua equipe na produção desse enunciado, já que pela língua, ele acessou um eleitorado latino e falante de espanhol. Ele menciona a dificuldade do imigrante, que nem sempre entende como seu nome é pronunciado, e o reconhecimento do espanhol como uma língua considerada difícil. Afirma que luta com ela, que o espanhol não é simples ou menor. Vejam como ele opera, quase brinca com as ideologias linguísticas, que orbitam a língua espanhola falada por migrantes nos EUA. Nesse momento, o espanhol é exaltado, assim como o imigrante e sua forma de falar. As ideologias linguísticas produzem, nesse vídeo, uma valoração positiva em relação ao espanhol, língua do migrante. Em suma, ele (e sua equipe) sabe operar com essas ideologias linguísticas que são desde sempre interseccionais.
OC: No capítulo de introdução intitulado “Ideologia linguística: como construir discursivamente o português do século XXI, do livro O português no século XXI: cenário geopolítico e sociolinguístico, Luiz Paulo da Moita Lopes (2013) afirma: “os estudiosos da linguagem custaram a perceber a relevância das teorizações sobre a globalização para o campo da linguagem, diferentemente de outros campos das ciências sociais e humanas”. No seu ponto de vista, o que implica essa afirmação no que diz respeito ao que devemos compreender por português e à condução de pesquisas na área da linguagem e do discurso?
NR: Primeiro que esse livro é um marco para nós no Brasil. Neste capítulo, Moita Lopes está falando da dificuldade da Linguística moderna em pensar essas relações de globalização, modernidade e colonialidade. Vale lembrar que a Linguística, enquanto ciência moderna, também auxiliou na construção de um mundo colonial, classificando línguas e falantes como, por exemplo, a atuação da linguística missionária. A linguística moderna, que pensa a língua como estrutura, contribuiu para construir certas ideologias do que é língua, do que é uma língua organizada, artefactuada. Moita Lopes propõe pensarmos de outro modo, que é o ponto de vista da Linguística Aplicada Crítica, transdisciplinar, mestiça, da sociolinguística crítica, que fui estudar com o Ramalho lá em Galícia. Enfim, é pensar formas de desarticular a colonialidade da linguagem e confrontar criticamente essas ideologias linguísticas que produzem desigualdades, violências e hierarquias sociais. E pensando no português hoje, temos a lusofonia, que também é uma ideologia linguística. Foi “inventada” essa ideia de lusofonia em que os países se unem em torno da língua portuguesa. Nesse debate, vemos a língua como ferramenta das colônias ou como um patrimônio. Um grande debate contemporâneo é a disputa entre o português brasileiro e o português europeu. Nesse embate ideológico e linguístico, destaco o valor apreciativo que diz que o português europeu é o correto, é o culto. Inclusive escrevi um capítulo no livro sobre as ideologias que circulam nessa relação do português brasileiro com o português europeu. Menciono neste texto uma citação da Cristine Severo (2016), que enfatiza como essa língua instaurada aqui, o português, mobilizou um conjunto de discursos e instrumentos linguísticos que foram usados como mecanismo de dominação ao enquadrar pessoas e línguas de forma específica, seja pela invenção, nomeação de línguas locais, seja pela produção e disseminação de diversos discursos sobre os povos e as línguas. Essas línguas indígenas são “menores”, são “subumanas”. Como que essas relações se deram? Quando penso em português hoje, precisamos colocar em xeque todas essas ideologias linguísticas coloniais e fazer ver o português como língua colonial, assim como o espanhol, o inglês e o francês. Outra questão importante para pensar português hoje é, também, pensar o português no contexto da superdiversidade linguística, que é um conceito do Blommaert (2014), que vai dizer que estamos vivendo o momento da superdiversidade, que é uma multiplicidade de semioses, de mídias, de movência, de mobilidade, movimentos migratórios, de tecnologia. Isso, também, vem colocando muito mais a linguagem em contato, produzindo mudanças e ideologias linguísticas.
OC: Em seu texto “Há crianças portuguesas que só falam brasileiro: ideologias linguísticas e valoração do português brasileiro em Portugal”, você se refere ao conceito de invenção das línguas. A partir disso você afirma que as línguas e as metalinguagens emergiram como parte do projeto colonial cristão e que esse projeto de construção continua em exercício. Você poderia aprofundar mais o assunto, de repente, destacando como isso acontece no Brasil?
NR: O conceito de língua como invenção é proposto nos trabalhos de Markoni e do Penycook (2015). Essa perspectiva entende que as línguas e metalinguagens são construções discursivas e históricas. Ou seja, a própria ideia de língua, de norma e das categorias que utilizamos para descrevê-la são produções sociais; invenções que integram um regime metadiscursivo, responsável por produzir ideologias linguísticas. Tais construções têm efeitos concretos na vida social. No Brasil, essas invenções produzem definições sobre o que é língua, qual variedade deve ser apropriada, o que deve ser ensinado na escola e quais categorias devem ser estabelecidas para organizar e classificar os usos linguísticos. Assim, constrói-se uma noção de língua delimitada e homogênea, aquilo que se define como português, embora essa delimitação seja resultado de processos históricos. Há pesquisas que apontam que, em termos variacionais, as línguas não surgem como entidades isoladas, mas como contínuos variacionais que se consolidam junto à formação dos Estados-nação. Isso evidencia que as chamadas línguas coloniais se firmam dentro de projetos políticos, vinculados à colonialidade. No caso brasileiro, a institucionalização do português envolve processos históricos específicos que definem o que deve ser considerado língua legítima, quem pode falar de determinada maneira e quais formas são marginalizadas. Essas construções impactam políticas linguísticas e práticas sociais, determinando acesso, prestígio e exclusão. A língua, tal como entendemos hoje, é resultado de processos sociais, históricos e políticos e é forjada por ideologias que definem legitimidades e hierarquias, nesse sentido é uma invenção! Bakhtin contribui para essa visão ao afirmar que a língua não é homogênea, mas heterogênea, viva, diversa e estratificada, atravessada por classe, raça, gênero, profissão e outras forças sociais. Ela é constituída por forças centrípetas e centrífugas, que revelam disputas, tensões e movimentos de consolidação e dispersão. As ideologias são forças que centralizam e descentralizam a língua, necessárias para a compreensão, mas também influenciadas pelas pessoas e intenções. Makoni e Pennycook (2015), propõem que a língua forjada na colonialidade é uma invenção. A questão que os autores querem pôr na mesa é: “Como poderíamos desinventar a língua?”. Não basta considerar que as línguas foram inventadas e com suas metalinguagens e metadiscursos e são forjadas/atravessadas por um projeto colonizador. É preciso pensar nas relações, nos regimes metadiscursivos e em alternativas para contrapor essa história colonial e pensar alternativas para desinventar e reconstituir. Observamos esses movimentos na literatura, na música, na arte. No Brasil, por exemplo, e não apenas aqui, há iniciativas de linguagem simples e acessível no espaço jurídico com objetivo de possibilitar um “trânsito” mais acessível ao cidadão, permitindo que ele compreenda os processos jurídicos via linguagem. Para desconstruir essas convenções, é necessário investigar, desnaturalizar e questionar ideologias linguísticas estabilizadas, naturalizadas. A língua é uma noção cultural associada ao surgimento de Estados-nação europeu e ao Iluminismo. Assim, a noção de “invenção” oferece a oportunidade de práticas contra-hegemônicas, permitindo contar outra história sobre a língua, pensar outras formas de narrá-la e subverter a lógica colonial.
OC: Ignês Signorini e Maria Inez Lucena (2023), no artigo “Linguagem e economia política em ativismos no twitter sobre o uso da ‘linguagem neutra’”, propõem uma discussão em torno do chamado bolsonarismo algorítmico nas redes sociais. Tomando essa discussão como base, de que modo as tecnologias/algoritmos podem influenciar na produção e circulação de ideologias linguísticas?
NR: As redes e o espaço tecnológico constituem hoje um ambiente fundamental de produção e circulação de ideologias linguísticas. São um dos principais vetores contemporâneos, relacionados a fenômenos como colonialismo digital, racismo algorítmico, ordenação racializada do conhecimento, recursos semióticos, discurso racista e discurso de ódio. Tudo isso é sustentado por ideologias sociais e linguísticas. A tecnologia também se conecta ao conceito de superdiversidade, discutido por Bloomaert, especialmente pela mobilidade que proporciona. Atualmente, não é mais necessário ter receio de viajar sem falar inglês, pois há tradutores e recursos tecnológicos que facilitam a comunicação e a tradução de textos. Nesse sentido, a tecnologia está diretamente ligada à discussão sobre superdiversidade e desempenha papel central na circulação e produção de ideologias. E hoje, todos se tornam, de certo modo, analistas do discurso. Eu mesma observo comentários e memes, que revelam diversas ideologias linguísticas, constituindo um campo fértil para pesquisa. Então, não há como discutir ideologias linguísticas sem pensar como elas circulam, são produzidas e impulsionadas pela/na cultura digital.
OC: Em recente artigo, intitulado “Aplicativos de aprendizagem de L2 e a economia das línguas: uma análise do Duolingo”, você, em coautoria, faz a seguinte afirmação: “ideologias linguísticas e a mercantilização das línguas estão intrinsecamente conectadas, refletindo, refratando e produzindo desigualdades sociais e culturais. As ideologias incidem sobre as línguas consideradas mais valiosas a fim de serem comercializadas. Já a mercantilização das línguas, por sua vez, reforça e perpetua essas ideologias, criando um ciclo contínuo de valorização e desvalorização linguística e de seus falantes”. O que se perde quando essa mercantilização acontece em relação aos aspectos socioculturais?
NR: Esse texto é, em grande parte, uma produção Laura Catalina Pena Ramirez, minha aluna colombiana, que desenvolve um estudo relevante sobre essas questões. O texto foi publicado em um dossiê organizado pelas professoras Clóris Torquato (UEPG) e Neiva Jung (UEM). Além de trazer reflexões importantes, apresenta possibilidades de análise para quem deseja pesquisar nesse campo. Quanto à mercantilização das línguas, trata-se de um conceito potente e amplo. Nesse processo, sempre há perdas e ganhos. Historicamente, havia o paradigma língua-povo-nação, que sustentava identidades e pertencimentos. Com o avanço do capitalismo, esse paradigma se transforma, as línguas passam a ser vistas como bens econômicos, promovidas e vendidas como recursos no mercado global. Assim, os sujeitos passam a ser avaliados pelo seu capital linguístico: quantas línguas falam, quais línguas dominam, se escrevem bem, se possuem certificações de proficiência. Esse capital linguístico, a priori, permite uma certa mobilidade e acesso a espaços de poder. Quando se trata de mercantilização, está se falando justamente de espaços de poder. Essa visão é hegemônica, é capitalista. Nessa lógica, em vez de considerar que o objetivo da apropriação de uma língua seria promover enriquecimento cognitivo, cultural e comunicativo, a ideia passa a ser a mercantilização. Refere-se a ter esse capital linguístico. Estou falando sobre isso porque estamos trabalhando com a plataforma Duolingo, e há várias outras plataformas. Não sei se acontece com vocês, mas, quando entro nas redes, o algoritmo me mostra cursos de inglês que prometem muito: “você vai falar inglês em um mês”, “esse curso vai resolver o seu problema de fala e de sotaque”. Isso rende muitas análises sobre ideologias linguísticas. E o que seria mercantilização? Grosso modo, mercantilização refere-se ao processo pelo qual a língua é tratada como mercadoria. Vou dar um exemplo: pensemos na aprendizagem de L2 no Brasil. Vejam, no Brasil, o ensino de línguas está cada vez mais elitizado; ele se tornou um mercado. Pensemos, por exemplo, no momento em que começaram as propagandas das escolas chamadas “bilíngues”. Passou a ser um diferencial porque apenas quem pode pagar essas escolas têm acesso. Antes havia o valor de “estudar em uma escola particular”; agora, não basta ser particular, tem que ser “uma escola bilíngue com mensalidade de sete mil reais”, por exemplo. A escola bilíngue passa a ser um valor social de classe. A partir disso, falando apenas de maneira geral, começaram a surgir artigos que analisam as propagandas de algumas dessas escolas, e disso derivou uma discussão sobre o que é, de fato, uma escola bilíngue no Brasil. No meu ponto de vista, o ensino bilíngue deveria ser acessível a todos os jovens e deveria ser um ensino de línguas satisfatório e emancipador. Por que, na escola pública, por exemplo, não aprendemos línguas e precisamos fazer curso de idiomas fora? Por que não temos essa qualificação? Não. É porque existe um mercado das línguas. Há países em que as pessoas aprendem língua estrangeira na escola pública. A famosa frase de Darcy Ribeiro “a crise na educação não é uma crise, é um projeto” se aplica aqui: é um projeto não ensinar línguas de modo que os sujeitos se apropriem de modo proficiente! A escola regular, e pública na maior parte das vezes, não ensina porque esse espaço se tornou um lugar de comercialização. Enfim, esse tema tem muitas camadas! Outro ponto que podemos pensar: temos uma fronteira enorme com nossos irmãos “hispanohablantes”. Por que não falamos espanhol? Atualmente, estamos discutindo o português como língua de acolhimento, e ainda há dificuldades e preconceitos de toda ordem em relação às pessoas migrantes. Tudo isso diz respeito ao valor da língua e do falante. Quando falo do inglês, por exemplo: na Europa, onde tive experiência, o Quadro Comum Europeu é muito simples. São três níveis: A (A1, A2), B (B1, B2) e C (C1, C2). Todas as línguas seguem essa estrutura; apenas o alemão tem mais níveis, porque, na verdade, é preciso uma vida inteira para aprender alemão (Rs)! Olhem a ideologia de que o alemão é uma língua muito difícil funcionando aqui! Brincadeiras à parte, quando você chega em um curso aqui no Brasil, aquele quadro que tinha apensa três níveis aumenta absurdamente: pré-iniciante, iniciante, básico 1, básico 2, intermediário 1, 2, 3, 4… O que era três, vira seis. É uma questão mercadológica. Quando comecei a observar isso mais de perto, fui olhar para o espanhol. Eu já tinha estudado espanhol na universidade na Espanha e queria dar continuidade, então fui pesquisar no Instituto Cervantes. Aqui no Brasil, as escolas conseguem estender esses níveis de ensino de língua estrangeira de um jeito que é pouco comum fora do país. Trago esse exemplo para mostrar, de forma prática, um processo de mercantilização das línguas em jogo. Ainda dentro dessa lógica da mercantilização, a língua inglesa é sempre apresentada como a língua da globalização. Essa é uma ideologia linguística dominante: a ideia de que aprender inglês permite que alguém “escape” da regionalidade e se torne global apenas porque domina a língua global. E isso não sou eu quem afirma, é Blommaert. Ele explica que não basta formular frases bem estruturadas. A pessoa deve, inclusive, falar com sotaque estadunidense de classe média ou britânico de Londres. Até o sotaque se transforma em “commodity”. A gente vê isso em vários filmes, indianos que trabalham do outro lado do mundo em call centers, treinando para falar com um inglês o mais próximo possível do estadunidense, a ponto de parecerem pessoas que realmente estão nos Estados Unidos. Tudo isso faz parte da mesma lógica capitalista e mercadológica. Quero destacar uma mudança importante aqui: as ideologias linguísticas pós-nacionalistas passam a promover a língua inglesa como ferramenta de ascensão social ou como marcador de hierarquização linguística. A ideia de “precisar ter a língua globalizada” se distancia daquelas ideologias que, antes, valorizavam a língua como identidade, orgulho e pertencimento. Nesse ponto, entra novamente a questão da diversidade. Nós convivemos com esse processo de mercantilização em meio a um cenário de superdiversidade linguística, e há inúmeros exemplos disso. Pegando apenas o caso da tecnologia: ela mesma passa a normatizar. Li estes dias uma notícia da Real Academia Espanhola negociando com uma grande plataforma para que os sistemas de busca e de processamento linguístico fossem alinhados ao castelhano da Espanha, desconsiderando os sotaques e variedades de outros países hispânicos. Isso aparece também em pesquisas como a do Duolingo, que não contempla muitos termos, usos e marcas fonéticas de variedades como a boliviana, colombiana, argentina, entre outras. Podemos inferir disso que a tecnologia, de modo geral, atua como uma força de centralização da língua. Em outras palavras, opera como uma força de padronização da língua e das variedades. É sempre esse jogo: de um lado, uma tendência à centralização; do outro, a diversidade tentando desestabilizar a língua em um contexto marcado pela lógica mercadológica.
REFERÊNCIAS
BLOMMAERT, Jan. Ideologias linguísticas e poder. In: SILVA, D. N.; FERREIRA, D. M.; ALENCAR, C. N. (Orgs.). Nova pragmática: modos de fazer. São Paulo: Cortez, 2014, p. 62-77.
DEL VALLE, J.; MEIRINHO-GUEDE, V. Ideologias linguísticas. In: CERRÓN-PALOMINO, Á. Enciclopedia de lingüística hispánica. [S.l.]: [s.n.], v. 2, 2016.
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MOITA LOPES, Luis Paulo da. (Org.). O português no século XXI: cenário geopolítico e sociolinguístico. São Paulo: Parábola, 2013.
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