Entrevista Especial XVIII – Prof. Dr. Sávio Siqueira (UFBA)

“Uma coisa importante a se dizer é que por conta desse contato multilíngue e de haver cada vez mais falantes não nativos, de diferentes backgrounds interculturais, o inglês, na condição de língua franca, torna-se cada vez menos inglês.

Isso é uma abstração, mas quanto mais ele se expande, menos inglês se torna. O inglês padrão permanece, seja britânico, seja americano, seja australiano. Mas esse inglês que circula no mundo, na internet, está cada vez mais misturado, mais fluido, mais emergente; ele está cada vez menos inglês dentro desse construto tradicional. As minhas perspectivas para o inglês como língua franca, por conta da tecnologia, é que ele vai permanecer, mas, cada vez mais, vai se contaminando no bom sentido. Ele vai seguir se transformando, se tornando cada vez mais emergente, misturado, híbrido, porque mais pessoas vão aprendendo esse inglês. Só que esse inglês é diferente do inglês circunscrito a um território”.         

 

Domingos Sávio Pimentel Siqueira é Doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, Professor Titular do Instituto de Letras da UFBA, Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Entre as áreas e temas que atua: formação de professores de línguas, estudos culturais e educação linguística, ensino de inglês como língua internacional ou língua franca, sociolinguística da língua inglesa, pedagogia crítica aplicada ao ensino de línguas, além de práticas reflexivas no ensino e na aprendizagem de línguas.  Líder certificado do grupo de pesquisa “Inglês como língua franca Brasil-UFBA”. Conduziu estudos de pós-doutorado dentro das temáticas inglês como língua franca, pedagogia crítica e produção de materiais didáticos no Departamento de Estudos de Segunda Língua da Universidade do Havaí. O professor Sávio Siqueira tem uma vasta experiência na área de inglês como língua franca. Em 18/11/2025, o Consoante promoveu uma entrevista-aula com Domingos Sávio Pimentel Siqueira, intitulada Inglês como língua franca: origens, desenvolvimentos e implicações político-pedagógicas. Suas contribuições foram enriquecedoras, conceituando língua franca, apresentando reflexões sobre o tema na BNCC, passando pelos multiletramentos, questões de poder que envolvem a língua inglesa e as perspectivas quanto à língua franca. Essa entrevista-aula foi preparada pelos acadêmicos do segundo ano do curso de Letras-Inglês da Universidade Estadual de Maringá, na disciplina “Práticas de extensão em estudos linguísticos.”

por Alícia Berlim Del Cuchi, Ariele de Godoy Vieira, Cauá Gabriel Moréli Silva, Helen Vitória Lourenço Soares, Isabelle Luíza Silva, Karina Montanhez Rosolen, Lucas Cristiano da Silva Gimenes, Marcos Vinícius Ferreira Lopes, Maria Cecília Bini, Maria Luíza Nery Macedo, Nicollas Raphael Ambrósio, Nicolle Laís Tanezi, Paulo Lúcio Bergamo, Pedro Azevedo Viana da Silva, Rafael Casarotto Zanutto, Sabrina Bortolego Raeski, Sara Maria Moscrdi Zanineli, Sophia Maria Moraes Godois dos Santos  (acadêmicos do 2º ano de Letras/Inglês), Professora Dra. Margarete Maria Soares Bin (Disciplina Práticas de extensão em estudos linguísticos-UEM-Maringá) e o professor da UEM-Maringá Dr. Neil Franco (Coordenador do O Consoante).

O Consoante: Com base na leitura de alguns textos de sua autoria, pelos quais identificamos o foco de sua pesquisa na aplicação e definição do inglês como língua franca, em consonância com diálogos promovidos na sala de aula do segundo ano de inglês da Universidade Estadual de Maringá, estabelecemos elevada curiosidade quanto ao seu histórico acadêmico, isto é, o percurso que o levou ao atual cenário de pesquisa. Com essa curiosidade, gostaríamos de saber: houve algum momento da “virada de chave” para que o senhor decidisse se aproximar da perspectiva do inglês como língua franca? Em caso afirmativo, como foi esse momento? O que o impulsionou a optar por essa área de pesquisa? Qual foi o maior obstáculo que o senhor encontrou durante sua trajetória de pesquisador?

Sávio Siqueira: Para chegar a esse momento eu preciso voltar ao passado e mostrar um pouco da minha trajetória. Muitos de nós (colegas e docentes ainda em formação) nos tornamos professores de inglês e de línguas de forma meio acidental, como aconteceu comigo. Na verdade, eu não escolhi ser professor de inglês, mas aconteceu. Foram circunstâncias que vinham desde o meu ensino médio, à época, Segundo Grau. Sempre fui uma pessoa muito ligada à leitura e interessada em literatura, principalmente, como adolescente, na literatura de língua portuguesa. Depois comecei a ouvir músicas em inglês e a me atrair pela língua, mas nada que me levasse a pensar em ser professor. Eu digo que a profissão me descobriu de forma bastante circunstancial. Por me destacar na disciplina, eu fui convidado por uma professora, que se tornou uma colega minha depois, para ser assistente dela. Eu não tinha nem entrado na universidade ainda, então comecei a me interessar muito pelo trabalho e fui sendo levado, sempre curioso em relação a várias questões, como essa coisa de pensar na língua para abrir o espaço do mundo, que era algo que sempre me atraiu. Eu venho de uma cidade pequena do interior da Bahia, mas eu constantemente busquei olhar para fora, para o mundo. Muitas coisas que eu escrevi, não foram publicadas, mas eu, repetidamente, disse que gostaria de saber o que estava para além da curva da minha cidade. E assim, eu já trabalhando como professor assistente de língua inglesa, entrei na Universidade Federal da Bahia. Fiz minha graduação e foi uma graduação trabalhando, ou seja, não foi uma graduação full time. Ao longo desse tempo, parei um pouco o curso, pois ganhei bolsas para os Estados Unidos e Inglaterra, então completei o curso de Letras com algumas interrupções. Nesse período, eu ainda tinha aquela visão, que fazia parte da nossa formação, que era a de me tornar um bom professor de língua, mais voltado para aspectos linguísticos, aspectos mais formais. Sobre aspectos extralinguísticos, apesar de ter aulas em Educação, Psicologia Aplicada à Educação e outras disciplinas que iam para além do linguístico, eu era muito interessado no linguístico, então eu estudei muito linguística e gosto muito da Linguística que é chamada de Linguística hard. Fui ao longo desse tempo, tendo experiências em escolas tradicionais, mas passei um bom tempo da minha vida trabalhando em um curso de língua inglesa, que é considerado o curso mais famoso aqui em Salvador. Foram 20 anos nesse instituto e foi um lugar que me ensinou muita coisa, onde comecei como professor e saí como coordenador pedagógico e administrativo. Essa escola é muito grande. No decorrer desse tempo, em minha trajetória, eu não tive muito acesso a trabalhos de pesquisa, porque eu passei boa parte da minha vida dando aula de língua inglesa. Essa escola tem uma ligação com os Estados Unidos, é um centro binacional, ou seja, tínhamos muita influência dessas questões culturais, voltadas para a nação, ou uma das nações em que o inglês é a primeira língua. E nós, habitantes do Brasil, de certa forma, que temos uma influência muito grande dos Estados Unidos, por consequência, houve momentos em que eu me questionava muito se eu não estava deixando me levar por essa ideia de me tornar, mesmo sendo um professor não- nativo, uma espécie de “embaixador dos Estados Unidos”. Eu era um professor super curioso, eu fiz vários cursos voltados para treinamento de professores, eu dava aula em cursos avançados, eu trabalhava com alunos que queriam fazer TOEFL, exames de Michigan, exames de Cambridge, mas, principalmente, os exames americanos. E quando eu comecei a ler mais, participar de congressos, descobri algumas pesquisas voltadas para o além do linguístico. Passei a compreender quanta coisa eu estava deixando de adicionar à minha profissão, para me tornar um bom professor. Eu era um professor conhecido, que sabia a língua alvo muito bem, que tinha um prestígio muito grande entre meus alunos. Tornei-me coordenador e tive experiências fantásticas, cheguei em um período em que, só na minha filial, eu tinha quatro mil alunos de língua inglesa, com idades entre 10 e 80 anos. Foi uma experiência muito boa. Quando comecei a trabalhar mais na administração da escola, decidi cursar um mestrado em administração pensando muito nessa questão do que posso fazer para agregar à minha formação. Porque, por exemplo, em termos de língua, eu podia dizer que estava satisfeito, ser um educador de professores também, eu já estava bastante avançado, mas eu queria mais. Disse, “olha, vou partir para uma pós-graduação porque é o que estou precisando”. Aí eu fiz o mestrado. Não era em relação à língua inglesa, mas era voltado para educação e, logo depois, não demorou muito tempo, eu comecei a buscar trabalhos voltados para a expansão do inglês pelo mundo. Deparei-me com livros, principalmente em viagens ao exterior, (naquela época não havia Amazon, nem Internet para que a gente tivesse acesso a tanto material), e era nas minhas viagens que eu começava a andar por bibliotecas, por livrarias e uma coisa me chamou a atenção, que foi essa ideia de que “O que é essa língua que começa a se expandir?”, até um pouco antes do boom da internet, principalmente para nós aqui. Então eu comprei alguns livros. Lembro que teve um que foi muito importante para mim, um livro de Sandra Lee Mckay: Teaching English as an international language, um livrinho publicado pela Oxford em 2002, e nele havia coisas interessantes e eu disse “puxa, é por aí que eu quero caminhar”. Depois eu fui investigar que Sandra Lee Mckay além de trabalhar em San Francisco (ela já faleceu, infelizmente), tinha, coincidentemente, também uma interlocução muito grande com a universidade do Havaí, que foi onde eu fui fazer meu pós-doc, mas depois a gente conversa sobre isso. Sandra tinha uma interlocução com um autor chamado Larry Smith. E Larry, eu fui descobrir que, em 1975, ele já pesquisava English as an international language. E uma coisa foi puxando a outra, mas tudo isso não era estudo de pós-graduação, era um esforço pessoal que eu estava fazendo para me preparar para um doutorado, e o que eu queria trabalhar num doutorado era essa expansão da língua inglesa. Depois eu descobri que Larry Smith, lá no Havaí, tinha uma interlocução com um casal de scholars indianos chamados Braj Kachru e Yamuna Kachru. Aliás, a Dra. Yamuna, acho que é viva ainda, mas Braj Kachru, o esposo, já faleceu. E eles estavam radicados na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, que eu conhecia, coincidentemente. E aí eu descobri que Larry tinha uma interlocução com eles, só que eles avançaram para um outro campo, que é o que nós chamamos de World Englishes. Assim, como um scholar vindo da Índia, Braj Kachru, já nos anos 1960, falava dessa expansão da língua inglesa, principalmente a partir do que floresceu do contato da língua inglesa nas antigas colônias britânicas. A Índia é um grande exemplo. Mas principalmente as colônias da África, as ex-colônias do sudeste e sul da Ásia como Malásia, Cingapura, Hong Kong, quando ainda pertencia à Inglaterra, e por aí vai. E ele chamou aquilo de New Englishes e World Englishes, no sentido de pensar que o que floresceu ali surgiu como uma língua que, em contato com mundos multilíngues, se tornou oficial e foi se moldando dentro daquele contexto. Foi aí que descobri, nas minhas curiosidades, que Kachru tinha sido articulador dos círculos concêntricos, do inner circle, outer circle, expanding circle, que embora sejam uma elaboração teórica já bastante contestada por conta de mobilidade e de determinar boundaries e fronteiras, é um marco nessa área. Eu descobri um livro dele muito interessante chamado The alchemy of English (A alquimia do inglês), eu comprei esse livro em Chicago na época, e foi uma coisa que  deu um click muito grande junto com o livro de Sandra Lee McKay, Teaching English as an International Language, porque o livro de McKay era mais voltado para o ensino realmente, o que nós podemos ensinar nessa língua, não como a língua dos Estados Unidos, a língua de Inglaterra, mas a língua internacional, principalmente o foco em ensino. Eu também comecei a ler muita coisa sobre educação intercultural, me interessei muito, fiz algumas disciplinas especiais no doutorado de Letras e Linguística na Universidade Federal da Bahia, que foi minha casa, em Letras, onde eu trabalho hoje. Também trabalhei com educação intercultural, que era uma coisa muito incipiente de se falar em língua inglesa ou em línguas em geral. A gente fala de cultura, mas essa interlocução com educação intercultural foi pequena ou era pequena na época. E eu disse “bem, eu quero trabalhar com educação intercultural, eu quero trabalhar inglês como língua internacional, mas eu quero uma coisa a mais”, foi aí que eu, na minha pesquisa de doutorado, trouxe Paulo Freire, a pedagogia crítica freiriana, para os estudos de inglês como língua internacional e educação intercultural. Acredito, talvez eu esteja errado, e não é a partir de nenhum tipo de arrogância, que havia sido se não o primeiro, um dos primeiros trabalhos que fizeram essa interlocução entre o ensino de inglês como língua internacional, educação intercultural e pedagogia crítica, tanto que a minha tese se chama exatamente Inglês como língua internacional: por uma pedagogia intercultural crítica. A partir daí,  defendi minha tese em 2008. Eu vi florescer muita coisa sobre educação intercultural e língua, sobre inglês como língua internacional e ensino de língua e também sobe pedagogia crítica quando sequer falávamos em pedagogia crítica de língua. Pelo menos eu ouvia muito pouco falar sobre letramento crítico e multiletramentos, para mim era algo novo e também vi muita coisa começando a surgir dentro dessa ideia de pensar o crítico nos estudos, na formação do professor de línguas. Infelizmente, ainda, os currículos tendem a ser muito fechados. A linguística aplicada tem aberto caminhos para nós falarmos sobre educação crítica, multiletramentos, consciência crítica, mas naquele momento ainda era algo muito incipiente. Logo depois, terminei a tese em junho, fiz concurso em setembro e comecei a trabalhar na Universidade Federal da Bahia ao final de dezembro e oficialmente em janeiro do ano seguinte. Pedi demissão do meu trabalho de 20 anos de uma escola de inglês de muito prestígio, mas cheguei à conclusão de que eles não precisavam de um doutor/pesquisador e que eu serviria mais tanto ao meu interesse pessoal quanto a minha comunidade, se eu migrasse para uma universidade onde eu pudesse fazer pesquisa, que era o que mais me interessava. Até aquele momento, eu não falava de inglês como língua franca. Aí quando vocês perguntam aqui, em relação à virada de chave, eu acho que a virada de chave foi exatamente neste momento da minha tese, mas eu ainda não usava o termo língua franca porque ele não era muito comum, embora, quem começou a usar o termo língua franca, foi justamente Jennifer Jenkins, que vocês devem conhecer da Inglaterra, isso no final dos anos 1980, entrando pelos anos 1990. A referida autora tem textos dos anos 90, mas quando ela trabalhou a partir das aulas dela, que os alunos usavam muito o inglês para se comunicar, ela usou ainda inglês como língua internacional, tanto que o trabalho resultante de uma pesquisa dela que foi publicada em 2001 chamava-se exatamente The phonology of English as a international language, que é um livro verde da Oxford. Em 2007, eu estava terminando minha tese quando me deparei com outro livro de Jennifer Jenkins chamado English as a lingua franca: attitude and identity. Saliento que, no início dos anos 2000, Jenkins e Barbra Seidlhofer já começavam a usar o termo língua franca, mas foi naquele momento, que para mim, consolidou-se que inglês como língua internacional iria permanecer, mas eu estava pensando em algo muito mais além, porque eu tinha em minha mente a questão política e ideológica e como Jenkins também tocou nesses aspectos, não no início, pois este era muito linguístico e eu estava ainda muito impregnado com as ideias de Freire, de educação intercultural, eu pude, talvez, aqui no nosso contexto enxergar um pouco antes essa questão do político e do ideológico no ensino de inglês. Consequentemente, foi uma mudança natural, de inglês como língua internacional para inglês como língua franca e isso me levou a descobrir outros materiais, a escrever a partir do meu contexto. Destaco que uma coisa que me impulsionou a optar por essa área de pesquisa é que começamos a ter conferências e um campo por se consolidar, porque chamamos língua franca o fenômeno ILF, mas também um campo de estudos. Para se consolidar como campo de estudos tem que ter uma produção científica, sendo a de ILF também gestada a partir de um DNA eurocêntrico. Começamos a ter algumas conferências a partir de 2008 e elas eram anuais. Eu frequentei a partir da quarta, fui a várias delas, e hoje nós estamos na 14ª, só que agora acontecem de dois em dois anos. A última foi em Praga, no ano passado. O campo se consolidou com conferências, tanto o estudo do fenômeno quanto a produção científica a partir de um journal que é o JELF- Journal of English as a Lingua Franca e uma série de livros chamada DELF- Developments in English as a Lingua Franca, que deve estar já no 20º volume e nós brasileiros temos uma participação relevante. Por exemplo, há um volume organizado por Luciana Cabrini da UEM, Michele El Kadri e Telma Gimenez da UEL, exatamente falando da Brazilian perspective. Em 2011, a Telma, Luciana e Michele viram algumas coisas que eu publiquei e nós começamos a nossa relação, não só de amigos, mas também acadêmica. Nesse período, final de 2010 e 2011, nós publicamos juntos, elas também organizaram pela Pontes, o primeiro livro do Brasil falando exatamente sobre a educação de professores de inglês a partir do conceito de língua franca que vocês podem encontrar facilmente. A partir daí, criei meu grupo de pesquisa e vários projetos de pesquisa, já usando o terno língua franca, embora eu tenha consciência que o termo é muito contaminado e as pessoas terminam por não entender o que é esse inglês como língua franca. Buscou-se esse termo a partir do conceito tradicional de língua franca e ele se consolidou como um campo de pesquisa, o próprio fenômeno e com críticas. Há vários scholars que preferem não usar essa expressão, preferem outros termos. Na verdade, esse fenômeno de expansão do inglês pelo mundo pode ser concebido a partir de várias perspectivas. Por exemplo, Nicola Galloway, que trabalha com o conceito de Global Englishes, coloca o termo como uma big umbrela e considera inglês como língua franca (ILF) como um dos paradigmas que tentam explicar a expansão do inglês pelo mundo. O que impulsionou meu interesse foram essas circunstâncias, o trabalho em parceria com colegas aqui do Brasil, mas também tive o prazer e creio que todos os colegas que trabalham hoje conosco, de encontrar um grupo muito legal, coeso, nas conferências, onde formamos uma rede muito interessante e nós, principalmente os povos do Sul, tivemos uma interlocução, eu, Telma e Clarissa com colegas da Grécia, Turquia, Portugal, Espanha, Itália, que são sul da Europa, e ali tínhamos muito interesses em comum, principalmente na formação de professores. Posso citar Nico Sifakis, da Grécia, Natasha Tsantila, também da Grécia, Stefania Kordia, da Grécia, Lucilla Lopriore, da Itália, Alessia Cogo, da Itália, os colegas de Portugal, Luis Guerra, Lili Cavalheiro e Ricardo Pereira. A partir do momento que o campo começou a se expandir, outros colegas juntaram-se a nós como Ana Paula Duboc da USP, colegas do norte, do centro-oeste, e aí fomos formando esse grupo que hoje chama-se exatamente ILF Brasil, que é a nossa rede. Em termos de obstáculos, penso que eles continuam, mas posso dizer que não tive grandes dificuldades, talvez, antes da internet, um dos grandes obstáculos era ter acesso à literatura específica porque tínhamos acesso a poucos livros ou artigos, e quando eram publicados fora do Brasil, como acontece até hoje, os journals não são abertos, não há Open Access. Como eu tive o privilégio de viajar muito, eu podia comprar alguns livros, mesmo assim eram livros caríssimos, embora na escola de inglês onde eu trabalhava antes da UFBA, nós tínhamos uma biblioteca muito rica, com livros sobre diferentes temas. Por exemplo, eu tive acesso a um livro que trazia um capítulo de Alastair Pennycook chamado English in the World, the World in English. Era exatamente um volume que estava lá perdido na biblioteca que ninguém olhava e quando li o artigo dele eu disse: “puxa, tem aqui uma coisa muito interessante acontecendo”. Foi quando conheci Alastair Peninycook que hoje todo mundo conhece. É lógico que há resistências de colegas em relação a mudar, já que mudança não é fácil, o pensar diferente, o que chamamos nos estudos decoloniais de To think otherwise. Não é simples ou fácil você vencer obstáculos, principalmente a partir de certos contextos ou ter tempo de estudar, de fazer um curso de pós-graduação ou de especialização. O que eu vejo na minha trajetória de pesquisador, e que me deixa muito feliz, é que eu tenho uma interlocução muito grande e boa com colegas, os quais têm muito a ver comigo e da forma como eu penso, da gente compartilhar, ouvir o outro, fazer escuta a partir de contextos. Para terminar essa pergunta, tenho uma preocupação muito importante, que é um desafio grande:  fazer que todas essas discussões, o que nós produzimos, cheguem ao professor, que vou chamar de “professor comum”, não no sentido negativo, que chegue a ele, meu colega que está na escola com 10, 12 ou 15 turmas, principalmente no setor público, que não tem tempo para estudar e às muitas vezes considera interessantes essas discussões, mas tende, de certa forma, a não sair da zona de conforto,  por vários motivos. Então, eu diria que um grande desafio ainda é continuar a disseminar esse conhecimento a partir das teses, dissertações, textos,  tudo que a gente puder fazer que chegue à sala de aula, aquilo que chamo de o chão da escola.

OC:  Levando em consideração as discussões presentes no seu artigo BNCC e Inglês como Língua Franca: do limão faremos uma limonada?, quais as mudanças que a BNCC trouxe em relação ao ensino do inglês na educação básica no que diz respeito ao inglês como língua franca?

SS: Essa é uma pergunta muito boa e quem leu o texto, possivelmente, vê que eu brinco com essa ideia de que a gente use uma linguagem mais palatável, menos acadêmica. É exatamente porque eu tenho essa vontade de que toda essa discussão chegue ao professor comum, ao professor regular, que não está estudando ou tendo tempo para tal. Então, eu brinco com a ideia de fazer uma limonada, exatamente para que de certa forma, esses textos possam ser bem palatáveis para todos os públicos. Eu diria que a BNCC ainda está trazendo muita coisa polêmica, principalmente, para nós e para quem está no dia a dia, porque sabemos que foi um projeto que teve uma trajetória bem complicada, ao longo do tempo passou por modificações, leitura críticas, entre outros. Até a segunda versão, ainda havia o componente ‘língua estrangeira moderna’. Depois, quando chegamos na terceira versão, foi algo que surpreendeu muita gente, quando mudou para ‘língua inglesa’, abandonando língua estrangeira moderna e modificando a LDB para que tornasse o inglês a única língua obrigatória no ensino básico, o que eu já disse várias vezes que é um absurdo,  porque, de certa forma, testemunha ou se alia à ideia do monolinguismo no Brasil. Por isso, eu sempre disse que hoje nós vivemos dois monolinguismos na educação básica: o do português padrão e o do inglês como língua estrangeira. Agora, o que é importante entendermos, é que o conceito de língua franca não é substituir um inglês por outro. Não é tirar esse inglês padrão e substituir por inglês língua franca. Por isso que tenho vários textos, inclusive com um colega aí do Paraná, Eduardo Figueiredo, mostrando que ensinar essa coisa do inglês como língua franca é a ideia de se ensinar sobre uma perspectiva de inglês como língua franca. Assim, o que a BNCC fez? Ela tem uma coisa boa, positiva. Eu já escrevi sobre isso com a Ana Paula Duboc e outros colegas também já escreveram: o fato de que ao menos descobriu-se esse termo, eu diria, que, de certa forma, era desconhecido para a maioria das pessoas que trabalham/trabalhavam na educação básica. Era algo mais da academia. Assim como os meus trabalhos com o inglês como língua internacional que ainda estavam pouco disseminados no dia a dia serviram para as pessoas entenderem que há uma grande diferença entre ensinar inglês como língua estrangeira, o chamado ILE, e ensinar inglês sob uma perspectiva de língua franca (ILF) ou até de inglês como língua internacional (ILI). Há vários elementos que são repensados, desconstruídos e que precisam ser, de certa forma, levados e discutidos na formação inicial e na formação continuada. Não sei precisar ainda quais mudanças significativas houve com a publicação da BNCC, porque quando o documento do ensino fundamental foi publicado, aquela introdução que insere o inglês como língua franca e sobre a perspectiva de multiletramentos, se explica ali, em tese, o conceito e aspectos relacionados ao de inglês como língua franca. Uma língua que se desloca dessa nação ou desse falante nativo, uma língua que é viageira, que se pensa a partir de inteligibilidade, de vários aspectos muito bem engendrados dentro desse conceito. Sugiro alguns textos que Ana Paula Duboc que escreveu sobre isso. Eu também escrevi com ela sobre o tema em questão e um deles vocês viram. O que acontece é que as mudanças estão sendo ainda muito paulatinas porque, para muitas pessoas e muitos professores, e eu tenho pesquisado sobre isso e outros colegas também, mesmo hoje cerca de 7 anos depois da publicação no final de 2018, ainda não sabem o que é inglês como língua franca, o que é ensinar inglês sob essa perspectiva. Por conta da Lei 13.415/2017, há uma obrigatoriedade  dos currículos, tanto estaduais quanto municipais, refletirem a BNCC, porque este é um documento normativo e termina que há muita confusão por parte dos professores. Eu costumo pensar que o inglês como língua franca oportuniza uma perspectiva libertadora. Na segunda parte do documento publicado em 2017, há todos aqueles constructos bem linguísticos de temáticas, principalmente voltados para aspectos gramaticais. Percebemos que há uma mudança, a qual considero importante, que é essa questão de que muita gente está consciente, mesmo ainda sem saber como implementar, pensando nas implicações  de o inglês ser hoje uma língua que viaja pelo mundo. Ou seja, há muito material sendo produzido. O PNLD, desde 2011, embora bem antes da publicação da BNCC, já vinha com os livros em uma concepção mais internacionalizada da língua inglesa, em que você tem, por exemplo, insights, materiais de pessoas não-nativas servindo de modelo, embora ainda não suficiente, para os alunos ouvirem outros falantes de língua inglesa e não apenas os falantes nativos de EUA ou Inglaterra. Digamos assim, os chamados falantes nativos tradicionais ou os tais “donos da língua”. Eu diria que (é lógico que há muita gente fazendo pesquisa), em termos de mudança, ainda é, por incrível que pareça, muito cedo para avaliarmos resultados mais sólidos dessa implementação. Há uma dissertação de mestrado de uma professora chamada Gabriela Rosa, que foi orientanda de Ana Paula Duboc (USP), na qual ela investiga o inglês como língua franca na BNCC. Entre outros aspectos, ela mostra o currículo da cidade de São Paulo, um currículo muito interessante, que se sustenta a partir  de direitos, entre outros. E esse currículo foi sendo descontinuado e agora eles estão trabalhando em um outro currículo que, de alguma forma, responda ao que é esse conceito de língua franca, língua híbrida, mestiça, desconectada de todos esses parâmetros, essas premissas que são ainda muito fortes dentro do ELT, dentro da indústria do ensino de língua inglesa. Acredito que as mudanças estão sendo paulatinas, inclusive, os professores, se tiverem tempo, precisam participar mais da produção de conhecimento, principalmente analisar currículos estaduais, municipais, porque com todas essas mudanças que estão acontecendo, a gente sabe que com o novo Ensino Médio há situações em que nem aula de inglês eles vão ter, os itinerários, por exemplo. Posso citar vários exemplos aqui na Bahia de colegas que têm trabalhado esses aspectos voltados para o que a gente alinha ao inglês como língua franca a partir de vários elementos: música, vídeos, canais no Youtube, sites, aplicativos, e demais subsídios que possam, de alguma sorte, mostrar para os alunos que o inglês que está aí no mundo ou o inglês que está circulando pelo mundo, não é esse inglês que se aprende na escola ou que se ainda ensinava na escola ou talvez ainda se ensine. Eu fiz a leitura crítica do currículo estadual do Acre e, apesar de você encontrar aspectos linguísticos que espelham os quadros de conteúdos da BNCC, havia também coisas bem interessantes voltadas para direitos linguísticos e tantos outros elementos que, de certa forma, davam liberdade ao professor. Mas ele precisa ter conhecimento, necessita  entender o que é ensinar sob uma perspectiva de língua franca. Para fechar, eu considero que essas mudanças ainda estão em processo, elas virão, elas terão que acontecer quando professores, tanto em formação continuada quanto formação inicial, estiverem em condições de compreender como é possível trabalhar sob uma perspectiva de língua franca porque é uma perspectiva libertadora. Sempre falo isso, e assim a gente precisa fazer do limão uma limonada. Se não é possível trabalhar todos os aspectos de língua franca, é possível fazer um balanço, tanto que nesse texto eu mostro, por exemplo, a partir das habilidades e da questão do intercultural, aquele continuum, que você coloca de um lado o chamado EFL, e do outro lado o ELF e algo no meio. Dessa forma, você pode, de alguma sorte, principalmente nesses momentos iniciais, trafegar pelo continuum. Mas isso tem que ser planejado, o professor não pode chegar e colocar o livro debaixo do braço e ir para a aula, ele precisa planejar. Olhar todos aspectos, até aspectos linguísticos de gramática, de pronúncia e verificar como poderá trabalhar, dentro desse continuum. Uma doutoranda da UFMG, professora de escola pública, de cuja banca de defesa eu participei, trouxe esta questão: qual é o inglês possível? Desse modo, esse fazer do limão uma limonada é isso: qual é o inglês possível de se ensinar dentro do meu contexto com todas as dificuldades que existem? Aquele continuum que eu adaptei de uma colega da Coréia do Sul, só que eu expandi a proposta original, segue exatamente nesse caminho de mostrar que uma coisa pode conviver com uma outra, não é jogar fora o que existe. Eu sempre fui contra essa ideia de jogar tudo fora, o que veio antes. Acho que a gente deve pensar no fato de que se houver momentos em que a gente pode de alguma sorte utilizar para reforçar alguma coisa ou para melhorar algum aprendizado de nossos de alunos, por que jogar tudo fora? Só que você pode trafegar nesse continuum e isso é bem prático. Ou seja, há momentos que você pode ser mais EFL, momentos que você pode estar no meio do caminho e momentos em que você pode ser mais ELF, principalmente quando você estiver trabalhando, por exemplo, com atividades mais abertas, discussões em que você não precisa corrigir o aluno o tempo todo e aí você pode ser mais ELF-oriented. Essas mudanças ainda são pequenas, estão acontecendo na educação básica como um todo, muita coisa está se fazendo, a universidade está tendo uma presença mais forte nisso e uma coisa boa que eu vejo, por exemplo, é que aqui há vários estudantes de mestrado e doutorado trabalhando nessa área, se preocupando com a BNCC e a formação de professores. Só para terminar, são mudanças que não ocorrem de um dia para o outro porque são conceituais, mexem com crenças, com questões estruturais, envolvem mais trabalho. É muito mais fácil você pegar um livro pronto que alguém adotou e acionar esse livro do que você preparar materiais; professor não tem tempo, professor, necessariamente, não tem tal habilidade para produzir materiais, há várias circunstâncias, então acredito que vou por esse caminho.

OC: Ainda sobre o texto BNCC e inglês como língua franca: do limão faremos uma limonada? é mencionado que o inglês não é considerado língua primária em sociedades no qual ele é falado diariamente, uma vez que está submetido à cultura multilíngue perpetuada nessas comunidades, com destaque especial para as ex-colônias britânicas. Tendo isso em mente, levantamos discussões acerca das origens plurilíngues/multiculturais das línguas de origem europeia, africana e americana, dando destaque às diferenças de tratamento promovidas nessas culturas. Nesse sentido, entendemos que as línguas europeias partem de um local em que as disputas por poder e a imposição linguística como forma de dominação se fazem muito mais comuns, o que reflete nas relações empregadas na atualidade. Sendo assim, como poderíamos compreender e lidar com o histórico de poder intrínseco (dominador) a uma língua enquanto assumimos o papel de educadores?

SS: É uma excelente pergunta. Eu penso que a primeira coisa que nós precisamos ter, voltando no meu passado, em que era isso que me faltava ter consciência, de que eu estava lidando com algo muito importante dentro da língua que se chama ‘poder’. Língua é igual a poder, a gente sabe muito bem, aí eu vou fazer uma visita ao colonialismo que é um tema que me interessa muito. Não sei se vocês conhecem, mas a primeira gramática da língua espanhola, que naquela época era a língua castelhana, foi escrita por um sujeito chamado Antonio de Nebrija, e ele, em uma das primeiras frases do texto diz assim: “A língua sempre foi a grande companheira dos impérios”.  Por quê? Porque a gente sabe que isso não precisa estudar muito, que numa situação de opressão ou de exploração ou de espoliação, que tem tudo a ver com o colonialismo, uma das primeiras armas de opressão e de dominação a serem usadas é exatamente a imposição da língua. É lógico que os colonialismos europeus, principalmente, têm muita semelhança. A primeira semelhança é o sangue, a empreitada aconteceu a partir da matança, de outros elementos, mas todas essas línguas europeias de grande poder carregam sangue na sua história, a gente não pode esquecer disso. O professor de línguas, e principalmente o professor de inglês, se essas discussões não chegam na disciplina, ele é levado ao que eu chamo de “descafeinar a língua”, de tirar esses elementos e simplesmente transformar a língua em algo como se não tivesse uma história e aquela ideia de ser algo neutro. Parece-me que havia uma pergunta aqui sobre neutralidade, não existe neutralidade em língua, nada é neutro, mesmo quando eu digo que estou sendo neutro, eu já não estou sendo neutro. Precisamos ter essa ideia de poder e compreender que nós não podemos nos render a ele e sempre visitar a história da língua. Quando você visita a história da língua inglesa, eu vou falar só do inglês, mas isso se aplica ao espanhol, ao português, a gente vê que, mesmo dentro dos primórdios do que se chamava Britânia, sempre houve luta por poder. Até antes de se chamar inglês, os romanos, os celtas, depois os anglos, os saxões, os jutes, etc., houve invasões, e sempre aconteceu a questão linguística de imposição. Agora vou dar um salto gigantesco e passo para o colonialismo. Depois que a Inglaterra, principalmente na era vitoriana, que as grandes navegações começaram a ter uma relevância bem maior, mas antes já, o império britânico se espalhou pelo mundo, o inglês entrou em contato com dezenas, centenas, milhares de línguas locais e foi imposto a ferro e fogo. Em alguns exemplos colonizatórios, a língua do invasor praticamente apagou quase todas as línguas autóctones, como foi o caso do Brasil. Isso não quer dizer que a história foi a mesma em todos os processos. O inglês, por exemplo, em vários locais apagou línguas (vide EUA), mas em outros lugares ela se manteve na convivência com outras línguas (vide Índia) e emergiu como uma nova variante, como é o caso dos New English nas ex-colônias britânicas. Por exemplo, a Índia, quando os ingleses começaram a comercializar com a Índia, ela era um país desenvolvido para aquele período. E por mais que eles dominassem a Índia, eles não conseguiram, por vários aspectos, impor o inglês em todo o país. Tanto que a Índia hoje tem mais de um bilhão de habitantes e talvez tenha em torno de quatrocentos milhões, trezentos e cinquenta milhões de indianos que falam inglês e que não é esse inglês da rainha, inglês do rei, mas um inglês local, ou se preferirem, inglês indiano, tanto que há um reconhecimento, o próprio dicionário Oxford tem um braço que é o Dictionary of Indian English. Destaco que o professor precisa ter essa noção de poder porque se não é como Rajagopalan fala “Nós temos que dominar a língua e não sermos dominados por ela”. Assim, se nós pensarmos em apenas ensinar a língua por língua, sem levar em consideração todos esses aspectos, nós estamos simplesmente incutindo nas cabeças dos nossos alunos que a língua não tem uma história, que a língua não é usada como instrumento de poder, inclusive para você construir contradiscurso. Por exemplo, há muita gente que diz assim hoje: “Para que eu vou aprender inglês, se eu não vou para os Estados Unidos? Para que eu vou aprender inglês se eu nem sei o português?” Veja como as pessoas são destituídas de poder sobre a língua. E você repete esse discurso, principalmente as camadas menos privilegiadas que não veem o acesso à língua estrangeira ou a língua segunda como um direito. E aí que eu entro com as minhas histórias e minhas pesquisas dizendo que a gente precisa cada vez mais conversar com as pessoas, mostrar que elas têm direito a aprender línguas e que a gente precisa se afastar um pouco desse pensamento de aprender línguas só para uma questão utilitária, voltada à lógica neoliberal do “eu vou aprender inglês para arranjar um melhor emprego”, sempre com um objetivo logo ali na frente. Enquanto nesses mundos multilíngues, as pessoas aprendem línguas como direito. Elas têm direito porque elas convivem nesses espaços onde as línguas são valorizadas. É por isso que você pergunta a um indiano: “Qual é a sua língua materna?” Aquilo para ele é um conceito muito estranho, porque eles falam quatro, cinco línguas, além do inglês. Além disso, a língua da mãe, a língua do pai, a língua do avô, a língua da avó e usam-se as línguas para determinadas situações. O mundo multilíngue consegue, de alguma forma, não eliminar, mas colocar em pé de quase igualdade essa coisa do poder. É claro que uma língua como o inglês hoje, mesmo nesses contextos, tem poder, porque é imposto a certos grupos sociais que se não souberem inglês, eles vão ser marginalizados. A  África do Sul, por exemplo, são onze línguas oficiais, mas nem toda população negra fala inglês, e por não falarem inglês, perdem oportunidades de ascensão, de empregos, entre outras coisas. Essa questão utilitária que se vende junto com o poder da língua é muito forte, mesmo nesses espaços multilíngues. Em outros espaços, a gente vê que a indústria é quem catapulta esse poder. É ela quem mostra que você precisa comprar a língua para ter acesso a ela. E é por isso que o contradiscurso fica limitado a pessoas que sabem que têm, ou que teriam o direito à língua, mas se elas não comprarem, elas não vão aprender. E esse discurso se repete na educação básica, principalmente na escola pública, de que não se aprende inglês na escola. Tudo isso vai formando uma bola de neve e sempre quem sai perdendo são as camadas menos privilegiadas, que infelizmente caem nessa armadilha de repetir esse discurso. Aí elas fazem um esforço muito grande para colocar o filho em uma escola de inglês mais barata. Embora hoje as tecnologias têm ajudado muito, esses aplicativos que não são caros ou aplicativos gratuitos têm auxiliado muitas pessoas, inclusive de camada social menos privilegiada a aprender inglês ou pelo menos ter um conceito menos distante do direito de aprender inglês. E eu estou falando isso, nem me referindo ao espanhol que foi tirado com a lei de 2017, nós nos deparamos com políticas públicas que reforçam o poder do monolinguismo. E quando a gente pensa no Brasil, um país que já teve mais de mil línguas e que hoje ainda tem em torno de 250, 270 línguas, ainda se tem essa visão absolutamente monolíngue, ou seja, de que no país só se fala português. Vejam como isso é algo deletério para a nossa mentalidade, para a nossa autoestima. E termina que, nós nos vemos como educadores, precisamos levar em conta toda essa história, tudo que é engendrado a partir do que essas línguas podem e fazem. O poder que elas têm, o poder que a elas é atribuído e que, infelizmente, no nosso contexto, ele ainda é um grande trunfo das camadas privilegiadas. Ainda é um bem cultural das camadas privilegiadas porque por mais que nós tenhamos, por exemplo, eu não sei se vocês já pararam para pensar, e quando digo isso aos meus colegas estrangeiros, eles acham super estranho, eu sempre digo para eles: “Olha, Letras é um curso de pobre. A gente não tem alunos de camadas privilegiadas como você tem em Direito, em Medicina, entre outros”. Nós somos um curso em que temos pessoas de camadas menos privilegiadas, assim, não sei se é a realidade no Paraná, pelo menos aqui é assim. E eu tenho recebido alunos que sabem inglês e que estudaram sozinhos, que aprenderam sozinhos com música, com esses aplicativos novos, a partir de streaming também. E quando digo aos nossos colegas estrangeiros que nós somos heróis porque nós, ao mesmo tempo que recebemos alunos quase zerados em inglês ou com esse conhecimento mais geral, mais disperso, nós temos que em quatro, cinco anos, dar dois cursos em paralelo, o curso de língua e o curso para ensinar a língua. Isso é algo que as pessoas fora do Brasil não conseguem compreender. Por exemplo, a gente não faz o que o ENEM ou o que os vestibulares testam, é muito pouco de língua, então nós recebemos em Letras alunos com, digamos assim, que fazem desde o Inglês 1, só que daqui a quatro anos, se ele está em uma licenciatura, em tese, eu preciso formar aquele aluno para ser professor de inglês. Eu preciso que em quatro anos ele saiba inglês e ele tenha condições de ensinar inglês e isso é algo fora do real. Para terminar, acredito que, como educadores, principalmente trabalhando nos diversos segmentos, nós precisamos ter essa visão crítica da língua. Há  um autor chamado Rapatahana que diz que “o problema não é a língua, o problema é o que fazem com a língua”. Lógico, são os usuários, o que eles fazem com a língua. Muitos usam a língua para oprimir, para destruir, para causar linguicídio, entre outros. Ter essa consciência da língua, o que eu não sou e o que eu sou, é superimportante. Eu sou um professor brasileiro de língua inglesa, eu não sou norte-americano, eu não sou inglês, eu sou um professor com todas as minhas virtudes e defeitos, que dou aula de língua inglesa, que tem esse nome língua inglesa, por questões históricas. É você criar gatekeeping. É uma língua, um povo, uma nação e pronto, todas essas questões, quanto mais falamos sobre elas, são bem-vindas, eu diria. Por isso que eu não falo muito de obstáculos, porque esses conceitos ou contra-conceitos são libertadores.

 

O Consoante: No artigo “É possível descolonizar o conteúdo dos materiais didáticos de língua inglesa? Ação na reflexão”, o senhor menciona a plasticidade dos livros didáticos. Podemos entendê-la tanto como a artificialidade dos temas, distantes de sua função social real, quanto como uma barreira que resiste a mudanças. Diante disso, considerando que a rede estadual do Paraná adotou as plataformas digitais substituindo os livros didáticos, como forma de controle, como podemos enfrentar essa resistência e “replastificação” dos materiais didáticos, que atuam para conservar estruturas físicas e sociais estabelecidas?

SS: Essa questão também é muito interessante, primeiro porque essa coisa da plataformização está se espalhando. E eu sei que começou no Paraná, com aquele ex-secretário da educação, que hoje é secretário da educação de São Paulo. E, realmente, é uma pergunta de um milhão de dólares no sentido que quando eu falo do mundo plástico do livro didático, que não é um termo meu, é um termo de um colega grego, Luke Prodromu, lá dos anos 1980, é para mostrar simplesmente que nenhum material é neutro e nenhum material é ideologicamente neutro. Tudo que é produzido tem um sentido, porque há pessoas ali por trás e quando eu falo do mundo plástico do livro didático é para o professor ter essa visão de que ele não pode ser um operador de material. Ele ou ela precisa ter uma visão crítica no sentido de interferir no material, porque mesmo se esse material for muito bom, ele nunca vai ser perfeito, porque não existe material didático perfeito, nenhum material é intocável. O conceito de língua franca ajudou muito a mudar o conteúdo de materiais didáticos, inclusive os internacionais, que seguem certos protocolos,  porque é um material de grande vendagem, é uma indústria, nós não podemos esquecer disso. Nós sabemos que pobreza, temas críticos, temas polêmicos não vendem. O que vende é o belo, é o lindo, é o maravilhoso, é a Disneylândia, por isso que eu chamo de Disneylândia pedagógica. Então ninguém quer discutir, por exemplo, temas do mundo real e que possam exercer uma função social. O nosso professor precisa ter conhecimento, ter essa consciência de que a sala de aula não pode ser um mundo separado do mundo real. Eu falo isso em vários textos, a sala de aula é um mundo real, ninguém deixa sua personalidade, seus preconceitos, quem você é do lado de fora e vem para a aula de inglês. Eu não posso estar aqui discutindo sobre esquiar no Colorado enquanto o mundo lá fora tem mil coisas acontecendo, sejam ruins ou boas, mas elas precisam entrar na sala de aula. O que se formou ao longo do tempo da aula de línguas foi esse mundo plástico. E esse mundo plástico é culturalmente ou, se preferirem, interculturalmente ou ideologicamente voltado para questões que venham enaltecer a tal cultura alvo, que eu chamo de cultura estereotipada. Se pensarmos na cultura norte-americana, o que é uma cultura norte-americana, o que é cultura dos Estados Unidos? Muita coisa interessante e negativa dos Estados Unidos não está e não vai estar nunca em um livro didático, não precisa nem sair dos Estados Unidos. Você não vê, por exemplo, nenhum aluno estudando ou ouvindo African American Vernacular English ou Black English, atividades de listening com Black English. Você não vê, e não é Estados Unidos? Você não vê pessoas e temas voltados para a crise dos opioides nos Estados Unidos, você não vê questões de inflação, você só vê tópicos como viagens, shopping, entre outros. Isso é muito bem articulado para vender, com aquele falso argumento de que “ah, mas culturalmente a gente tem que ter cuidado para não abordar certos temas por conta disso e daquilo”. Não é bem assim, você pode estudar determinadas culturas dentro do seu mercado e trazer temas que não sejam essas bobagens que a gente já não aguenta mais, que são sempre as mesmas coisas, a família real britânica e tantos outros exemplos que nós poderíamos dar de coisas que se repetem ao longo do tempo. O professor ou professora precisa estar empoderado ou empoderada para entender que eles podem e devem agir sobre o material, mas isso só se faz com planejamento, lendo, estudando, tentando produzir algum tipo de material para que consigam dizer “olha, essa unidade, embora trate desses aspectos linguísticos, eu não irei passar duas aulas falando de skiing em Colorado se eu moro em um país tropical, se eu sei que meus alunos ou pouquíssimos dos meus alunos vão passear de esqui no Colorado. Não quer dizer que você não pode trabalhar aquele vocabulário, mas você pode trazer temas do mundo real, do contexto dos nossos alunos. É isso que eu discuto. Agora, em relação à plataformização, eu não tive acesso ainda às temáticas. Na verdade, eu adorei quando alguém disse que está havendo uma “replastificação”, o que deixa a entender que se está trocando o material didático por slides das plataformas, é o mesmo mundo didático, mudou apenas o meio? E eu não sei nem que qualidade. Aqui na Bahia eu não me lembro, parece-me que não há ainda material de plataforma, o que eu tenho ouvido falar vem daí, de colegas do Paraná, é que o professor está se sentindo oprimido porque parece que se instala uma forma de controle. Os alunos precisam marcar presença e o professor também, utilizando-se do material. Tudo isso é abominável, já não bastam todos os problemas que nós enfrentamos no dia a dia, eu tenho acompanhado as manifestações aí no Paraná e tenho visto como o professorado está extremamente incomodado com essas coisas. Lembro-me que quando houve o falecimento daquela professora no Paraná, isso repercutiu nacionalmente. As pessoas estão adoecendo, nós já estamos adoecendo por vários motivos na docência. Esse controle exacerbado possivelmente é mais um elemento de adoecimento. Voltando para o conteúdo das plataformas, do material das plataformas, como eu já tinha dito, eu não tenho acesso, mas se é uma “replastificação”, então basicamente deve ser a mesma coisa. Eu também não sei se o professor tem condições de mexer nesse material, se ele não tem, é pior ainda, porque termina que ele fica sendo apenas esse acompanhante do uso, é quase um, digamos assim, vigilante do uso da plataforma.

O Consoante: No texto Inglês como língua franca não é zona neutra, é zona transcultural de poder: por uma descolonização de concepções, práticas e atitudes, dentro da ideia de decolonizar a língua, há consequentemente a ideia de uma língua como língua colonizadora, sendo esta o inglês. Porém, para que uma língua seja considerada como franca, ela passa por um processo em uma posição de colonizadora. Dessa forma, é entendido a importância da visão que as pessoas têm sobre a língua, de forma que seja compreendido que mesmo com a língua franca sendo consequentemente, colonizadora, o maior valor está em como as pessoas veem e tratam essa língua em relação às outras, percebendo que não há um sistema de superioridade entre línguas. Assim, quais são as maneiras que o senhor acredita que podem ajudar a sociedade a desconstruir a visão de superioridade do inglês?

SS: Ótima pergunta também. Creio que a primeira coisa é pensar o inglês dentro de um contexto multilíngue, o que, para nós, é um exercício muito mais difícil, porque nós, brasileiros, vocês talvez menos aí no Paraná, mas, nós, aqui, convivemos basicamente com essa ideia monolíngue contra a qual é difícil você lutar, mas não é impossível. A primeira coisa a se pensar é enxergar o inglês dentro desse conceito multilíngue, em que ele é apenas mais um. Você também não pode ser ingênuo e achar que as pessoas não sabem o poder que tem o inglês, porque a gente sabe disso, tanto que a gente vê, por exemplo, nessa visão neoliberal, dizer assim: “para você ter um emprego em um grande banco, o inglês é sine qua non. Agora se você tem espanhol, francês, já é um plus”. Aí o que acontece: cada vez mais, precisamos lutar contra essa visão neoliberal, que ela também impulsiona esse poder colonizador, que vai de certa forma reforçando essa ideia de que a língua, ao mesmo tempo em que é vista como língua franca, continua tendo esse destaque de língua de grande poder. São discursos e contradiscursos, são forças de um lado e de outro. A gente não pode perder de vista que essas diferentes perspectivas são ideológicas e são políticas e você tem forças aqui lutando umas contra as outras e não é algo muito fácil. Então não é porque estamos falando de língua franca que todas essas vestes colonizadoras vão desaparecer assim magicamente. Elas não vão desaparecer porque você tem uma força muito grande de uma indústria poderosa alimentada por conceitos de globalização, de neoliberalismo que catapulta essa força da língua inglesa, de certa forma, colocando em foco essa assimetria o tempo todo. Ou seja, a gente buscando simetria e essas forças buscando aumentar essa assimetria. Aí é que eu vejo a importância de um professor crítico, um professor que possa dentro de suas possibilidades não se vergar a essas premissas. A gente sabe que ser um professor que pensa e um professor crítico, dependendo dos garrotes institucionais, termina sofrendo certas retaliações. Mas não vamos ser ingênuos de achar que mesmo se nos alinharmos a esse conceito que, inclusive dialogando com estudos decoloniais, essa força vai desaparecer de uma hora para outra, não vai! É por isso que eu sempre acho que a formação de professores é extremamente importante, mas desde o primeiro dia, para que eles sejam capazes de mostrar ao aluno como essas coisas funcionam e que a gente precisa, de certa forma, desconstituir este poder que é atribuído a essas línguas. Por exemplo, é engraçado que o brasileiro não vê no espanhol o poder que ele vê no inglês, então o espanhol é uma língua de grande poder, uma língua colonizadora, uma língua colonial, é uma língua franca também, mas a gente não atribui a ela a importância que tem como uma língua global, assim como não atribui outros aspectos ao espanhol, muito menos ao francês, a línguas que também têm esse histórico colonial. São forças que vão estar ali o tempo todo a partir de uma grande indústria lutando para manter isso, num país que, em determinados lugares, alguém colocou a língua de inúmeros imigrantes em determinados locais onde o multilinguismo é mais palpável, onde ele é mais visível, talvez seja mais fácil você desconstruir isso ou pelo menos dar condições dos nossos alunos poderem entender que o inglês é apenas mais uma língua e é uma língua de poder, mas ela não precisa ser vista como essa língua que está num patamar muito além de outras, porque se a gente trabalha sob uma visão multilíngue, a gente consegue, de alguma forma, mostrar que o multilinguismo que é a regra e o monolinguismo a exceção. Sociedades monolíngues no mundo afora são exceções. A gente diz que uma boa parte dos falantes de língua inglesa nos dois espaços de poder globais são quase, a maioria, monolíngues. Já pararam para pensar sobre isso? Nos Estados Unidos quem não é bilíngue, principalmente os de origens hispânicas ou os que ainda mantêm algum laço com suas terras de imigração, o norte-americano comum é monolíngue, um britânico comum é monolíngue, os escoceses são bilíngues, os galeses são bilíngues, os irlandeses são bilíngues, mas os ingleses, uma boa parte da população, são monolíngues. Contudo, eles não se sentem ameaçados porque, em tese, a língua deles é uma língua global, só que eles se esquecem de uma coisa muito importante e o professor Rajan já dizia isto: “Já chegou o tempo em que falantes monolíngues, de língua inglesa, vão ter que fazer crash courses in English para poder se comunicar pelo mundo”, porque se um falante monolíngue de inglês, lá de Dakota do Norte, chegar na China achando que alguém vai falar inglês como ele acha que deve ser, ele está muitíssimo enganado. E ele vai dizer Could you, please, speak English?. a pessoa vai dizer, I’m sorry, sir, I am speaking English, só que não é o seu inglês!”. Precisamos estar atentos o tempo todo a essas forças e tentar mostrar para os nossos alunos que o monolinguismo é uma exceção, que muito se construiu a partir dessa ideia de monolinguismo, de apagamento. Não é à toa que temos o termo “linguicídio”, que é exatamente um genocídio das línguas. Acredito que é um pouco por aí, para desconstruir essa visão de superioridade e a gente investir no multilinguismo ou no plurilinguismo, se vocês preferirem, mesmo em locais em que ainda há uma força muito grande jogando contra. Eu sofro muito com isso aqui, nas minhas aulas eu tento mostrar para os meus alunos que infelizmente nós nascemos num lugar onde o monolinguismo impera. Nós poderíamos ter nascido num lugar em que poderíamos estar falando português e a língua geral, o tupi-guarani. Vocês aí no Paraná, quem está na fronteira, têm esse privilégio. Eu me lembro de quando eu andava em Cascavel e ia para Foz do Iguaçu, e ao atravessar a ponte para em Ciudad del Este, eu via meninos de rua trafegando entre línguas. Quando eles falavam com os brasileiros, falavam em português; quando falavam com os policiais que os enxotavam, falavam em espanhol paraguaio e, entre eles, falavam guarani. Esses meninos foram praticamente criados no mundo trilíngue e a gente tem lugares em que o monolinguismo ainda impera, isso é uma coisa muito triste. O colonialismo no Brasil, nesse aspecto em particular foi muito cruel. Acho que é um pouco por aí.

O consoante: A globalização e a tecnologia transformam profundamente o papel do professor de uma língua estrangeira. Na sua visão, que competências críticas e discursivas são indispensáveis ao professor de inglês contemporâneo do ensino fundamental e médio?

SS: Eu não diria isso somente do fundamental e médio, eu diria de todo professor de línguas ou de inglês. Sabemos que há diferenças entre quem ensina em cursos livres e quem ensina na universidade, mas eu acredito que é algo inerente a todo mundo. Nós vivemos em um mundo que há discursos “glocais”, globais e locais. Nós precisamos ter o que eu chamo de consciência decolonial. Nós não falamos muito sobre questões decoloniais, mas, de certa forma, penso que a gente tem que ter essa consciência de que, por exemplo, em competências que privilegiem a diversidade, a ideia de que o diverso é que é belo, embora as pessoas considerem que ser igual é legal, eu acredito que ser diferente é que é legal. Em questões mais específicas, pensar que língua é algo absolutamente intrínseco a variação. Não existe um pacote fechado, hermético de língua como essa ideia de norma culta, fechada. Muito pelo contrário. No mundo, nós temos que estar atentos a essas questões. Devemos pensar em todos esses aspectos, tanto de discurso quanto de competência crítica. Precisamos pensar nesse mundo digital, a gente não pode fugir dele, ele já invadiu a nossa vida, mas eu acho que é necessária uma competência ética para navegar nesse mundo também. Pensar, por exemplo, que o professor deve estar atento a todas essas linguagens, a todos esses aspectos voltados para multimeios e multimodalidades. Hoje em dia, a internet basicamente implodiu todas as formas de comunicações tradicionais, então precisamos ver como esses discursos estão trafegando no mundo digital. Nós precisamos estar atentos a trabalhar gêneros dos mais diversos, como questões voltadas a aspectos como inteligência artificial, que é um mundo a ser explorado e para muitos é algo temeroso, mas, para outras pessoas, já é algo mais acessível. E a ética precisa funcionar de forma, eu diria, gritante, para que se tenham condições de ter conhecimento até para compreender até aonde se pode ir com o uso das ferramentas de inteligência artificial com seus alunos. Talvez seja este um dos grandes desafios no campo de desenvolvimento de novas competências. Ali circula todo tipo de discurso, todo tipo de texto e não adianta a gente dar uma de avestruz, enfiar a cabeça no chão e fazer de conta que não está acontecendo nada, porque nós estaremos, o tempo todo, lidando com isso. Eu diria que, como professores de língua inglesa, a gente tem que pensar de forma ampla em relação a como a comunicação está se dando em inglês pelo mundo e todos os aspectos voltados para isso. Sejam aspectos discursivos ou outros. Mas a gente precisa ter essa visão, de que se essa língua é a língua de comunicação global, que estamos chamando de língua franca, a gente precisa ter uma ideia de como ela está se propagando pelo mundo, das diferentes formas e principalmente no mundo digital e o que eu, como professor, preciso desenvolver em termo de habilidades ou competências, seja lá como nós chamarmos, para saber lidar com tudo isso. Tem uma coisa que eu já falei, que eu queria também trazer: a gente precisa aprender com os nossos alunos, dialogar com  nossos alunos, entender que nossos alunos em vários aspectos, principalmente nessas questões do mundo digital, sabem muito, pelo menos no meu caso, e podem nos ajudar e a gente pode trabalhar juntos. É você poder, de alguma forma, criar um mundo de diálogo em que nós temos a ética no meio como algo que venha ser um balizador. Eu penso muito que se a gente compreender como o inglês está acontecendo no mundo a partir de todos esses aspectos, teremos condições de, ao menos, tentar desenvolver e se abrir para essas novas ideias. Por exemplo, não podemos deixar de falar dos multiletramentos que a BNCC endossa ao menos em teoria, dos aspectos voltados para multimeios, as novas linguagens. Não podemos deixar de pensar na imagem, hoje o texto imagético responde muito mais às demandas dos nossos alunos do que o próprio texto na sua forma tradicional escrita. A imagem hoje tem um poder enorme. Eu sempre gosto de dizer que nós estamos a desenvolver repertórios linguísticos, culturais e semióticos, porque o aspecto semiótico é muito presente hoje em dia. Precisamos sair de nossa zona de conforto par poder entender que a informação hoje está aí, ela vai entrar na sala de aula, não tem jeito. As competências críticas e discursivas se juntam a partir da nossa abertura e a nossa tomada de consciência do que é ser professor de língua inglesa hoje. Ser professor de língua inglesa hoje não é igual a ser professor de língua inglesa há 10, 15 anos, é muito mais complexo, porque se essa língua é a língua franca global, uma das línguas francas nesse mundo multilíngue, ensinar essa língua vai nos ensinar a desconstruir muita coisa que nós aprendemos há a 10, 15 anos, até da forma como nós aprendemos essa língua. Precisamos repensar muita coisa, mas entender que o conhecimento que nós tínhamos de 10 anos atrás, precisa ser repensado. Não precisa jogar tudo fora, mas é preciso entender que vivemos um outro mundo, um novo mundo, e cada vez mais você tem, por exemplo, aí no Paraná acredito que é muito comum, salas multilíngues com alunos que já falam duas, três línguas a partir de processos migração, novos fluxos migratórios, por exemplo, ucranianos por conta dessa guerra louca e tantos outros contextos em que o professor vai ensinar inglês mesmo em locais em que você não tem esse multilinguismo ainda tão desenvolvido, mas não é a mesma coisa de se ensinar inglês como no passado. É outra história, porque comunicação que está acontecendo no mundo em língua inglesa é muito mais que a busca pela interação com falantes nativos, ou seja, estudar para falar, para se comunicar com falante nativo. Isso, acredito, engloba o que vocês chamaram aqui de competências.

OC: O senhor fez o pós-doutorado dentro das temáticas inglês como língua franca, pedagogia crítica e produção de materiais didáticos no Departamento de Estudos de Segunda Língua da Universidade do Havaí. Sabemos que o Havaí, é o último estado a ser anexado aos EUA, tendo uma relação complicada com os americanos devido a sua história e a um processo tardio de colonização. Sendo as línguas oficiais inglês e havaiano, como o senhor entende o ensino de língua inglesa no Havaí como língua oficial? Ela poderia ser um modo de resistência, da mesma maneira como entendemos o ensino de inglês como língua franca e a pedagogia crítica aqui no Brasil, ou por ela ser parte dos EUA e o ensino ser de língua nativa (materna) há uma mudança?

SS: Obrigado por terem me feito lembrar do período que passei no Havaí, foi um período muito rico quando estive lá. Por exemplo, pude visitar a sala onde Larry Smith, autor que citei aqui, trabalhava. Eu pensei: que coincidência, estou aqui no lugar onde um autor que despertou muita coisa para mim trabalhou durante muitos anos. Eu tenho muito apreço pelo Havaí e pelo período que passei lá, porque, para mim, o Havaí é um país. O Havaí é uma cadeia de ilhas e são sete ilhas, dentre elas, a gente chama de Big Island, que é a que dá o nome ao arquipélago, a ilha do Havaí e é a menos desenvolvida e a menos populosa por conta dos vulcões ativos que existem lá. A ilha mais populosa é Oʻahu, onde está a capital Honolulu e tem ainda Maui, Moloka’i e as outras ilhas. A minha experiência no Havaí foi muito marcante. Trabalhei com um colega, Graham Crookes, com quem trabalho até hoje. Trabalhamos juntos, produzimos juntos. Graham Crookes é um inglês radicado no Havaí há muitos anos e que adora o trabalho de Paulo Freire. Trabalhamos com a pedagogia crítica e, como um dos frutos dessa interação, publicamos um livro em 2023 que tem muito a ver com o pós-doutorado que fiz com ele. Essa pesquisa tratou muito da questão da língua inglesa, que é algo mais complexo do que se imagina. Voltando à história do Havaí, quando as ilhas foram unificadas pelo Rei Kamehameha, a ideia era manter um reino independente, porém, ao longo do período, especialmente quando os Estados Unidos anexaram o arquipélago, a história mostra que a rainha foi enganada, uma história bem complexa. Liliʻuokalani, foi a última monarca do Reino do Havaí, deposta por um golpe de empresários americanos e monarquistas em 1893 e forçada a abdicar em 1895. Além disso, não podemos esquecer de outros fluxos migratórios que ocorreram naquelas ilhas. A riqueza multilíngue do Havaí é muito grande. Não é apenas o inglês que está presente, existe também uma forte influência do português. O português dos Açores entrou no Havaí no final do século XIX e início do século XX, não se ouve português no Havaí, mas  há muitos nomes e muitas famílias, inclusive encontrei uma senhora que o nome  dela era Pimentel, que é um dos meus nomes e muitos açorianos foram trabalhar no Havaí, principalmente no plantio de abacaxi e cana-de-açúcar. Não sei se vocês conhecem o instrumento típico do Havaí, o ukulele, que lembra um pouco o cavaquinho. Quem levou o ukulele para se juntar aos tambores havaianos foram exatamente os açorianos. O Havaí está no meio do Pacífico, está  quase à mesma distância, por exemplo, dos Estados Unidos continentais com países da Ásia. Há uma influência muito forte do Japão lá. Não é à toa que houve o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, que vocês devem se lembrar dos livros de História e toda essa confusão que houve lá e que provocou a entrada dos EUA na Segunda Guerra. No desenrolar das consequências, anos depois, os EUA quase destruíram o Japão, sendo os eventos mais notórios e cruéis, o lançamento das bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. O japonês é muito falado no Havaí devido à forte imigração e a indústria do turismo, assim como o coreano. Então, além do inglês americano, ouve-se também coreano e japonês, inclusive em rádios e televisões. A resistência do povo havaiano está muito presente. Nas escolas se ensina inglês como língua nativa, mas também, principalmente, por parte das famílias de origem havaiana, que são todos polinésios, por conta da região, a força da cultura havaiana está na comida, na cultura e na língua. O que a gente identifica lá? Além do inglês, existe algo chamado Hawaiian Pidgin, que é uma mistura do inglês com o havaiano, um inglês crioulo. Existe então o havaiano, o pidgin e o inglês, além das outras línguas de migração. O tempo todo lá percebi que há muitas forças de resistência. Como o Havaí se tornou uma espécie de resort dos EUA, estão lá todos os grandes resorts da Disney, de Donald Trump, entre outros. A grande indústria do estado é o turismo, então eles aproveitam isso e usam elementos da tradição indígena local com os luaus, a hula e outras manifestações. Há também a fama do surfe por conta das ondas gigantes muito comuns nas ilhas. Mas há um outro Havaí que muitos desconhecem. Havaí muito habitado e muito usado pelo militarismo americano, há a base naval, que é a base de Pearl Harbor, que já citei, na cidade de Pearl City em Oahu, e, claro, há muitos militares morando lá. São destacados para lá, falam inglês, são norte-americanos que vivem lá. Falam inglês, claro, só que não são bilíngues, são monolíngues, o que os difere de uma boa parte dos havaianos, de famílias havaianas, até na cor são diferentes. Os polinésios são mais fortes, cabelos pretos. No Havaí, a comunidade autóctone dispõe de rádios, televisão, organizam seus jogos, mantêm sua música, sua língua. Embora não sejam línguas de poder, tanto o  Hawaiian pidgin quanto o havaiano, ainda são muito escutados e há uma força para tentar mantê-los vivos. E aí, por exemplo, na universidade é possível aprender havaiano, há disciplinas como Havaiano 101, Havaiano 102, etc., há livros publicados, muita literatura nessas línguas. Então, no Havaí, apesar da força do inglês, a resistência é forte porque eles têm políticas públicas e força comunitária que tentam resistir ao domínio do inglês. Para o havaiano típico, ele é americano apenas no passaporte ou no documento. Eles se sentem muito mais havaianos, estão muito mais ligados às suas tradições do que aos Estados Unidos. E eles têm que ser assim, porque a distância, inclusive geográfica, é muito grande. Os aeroportos dos EUA continentais mais próximos de Honolulu são São Francisco e Los Angeles, são mais ou menos cinco horas e meia de avião sobre o mar azul. Então eles têm esse privilégio de serem quase uma nação independente, embora estejam regidos pela legislação norte-americana. O inglês é ensinado nesse mundo multilíngue fantástico, há línguas muito fortes como falei, o japonês e o coreano, filipino e suas variantes. Esqueci de dizer que muitos filipinos moram nas ilhas havaianas e na universidade também se pode aprender filipino, tagalog e outras línguas filipinas. Existe uma população muito grande de filipinos no Havaí e a gente convive com esse caldeirão multicultural. Você vê que há uma separação muito clara entre o americano típico e aquele que não se sente americano, que  é americano apenas no papel. Mas eu fiquei muito feliz de você terem me feito essa pergunta porque me levou de volta a uns tempos maravilhosos que eu passei por lá.

OC: O inglês como a língua franca de maior prestígio no mundo todo não é um dado decorrente da natureza ou do acaso, mas das práticas materiais presentes em nível quase mundial. Tendo em vista seus conhecimentos sobre Língua Franca e levando em consideração as atualidades internacionais e geopolíticas, quais são suas perspectivas para o inglês como língua franca?

SS: Essa também é uma pergunta muito boa. Na verdade, a gente sabe que ela não é a língua franca por sua natureza ou pelo acaso, houve movimentos de poder que empurraram essa e outras línguas coloniais pelo mundo afora. Sabemos que o imperialismo e o colonialismo britânicos, em um passado mais remoto, espalharam o inglês por toda parte, uma vez que o império britânico era conhecido como “o império em que o sol nunca se põe”, pois ele se estendia desde o Caribe, no Ocidente até a China, Hong Kong, no Oriente. Então, foi o imperialismo britânico, a partir do comércio e da exploração de outros territórios, que impulsionou essa língua. Dizemos que ela cavalgou muito bem no cavalo selado do imperialismo. O estudo da língua inglesa está dentro desse constructo do colonialismo, ele reflete esse construto até hoje. O que não é por acaso, muito pelo contrário. Depois da Segunda Guerra Mundial, outro cavalo selado passou, que foi a ascensão brutal dos Estados Unidos como potência global, que, de novo, empurrou essa língua pelo mundo e, contando com a ajuda das tecnologias de informação e comunicação, se expandiu pelo planeta como nenhuma outra. Se pensarmos, quando a internet começou, 99% do seu conteúdo era em língua inglesa, o que foi diminuindo para 80% e hoje já está bem melhor distribuído. O inglês ainda é predominante, mas, por exemplo, línguas como o português, árabe, mandarim, espanhol e hindi avançaram bastante na internet. Nas redes sociais mais populares, por exemplo, dados de 2015 mostram que o português e o árabe foram as línguas que mais tinham crescido, enquanto o inglês estava estacionado. Portanto, a sua expansão não foi por acaso. Só que essa língua tem que pagar um preço, ou seja, ela está cada vez mais misturada em mundos multilíngues, nesse contato ela deu o que chamados de siblings, diríamos filhotes, os chamados novos ingleses, e, mais ainda, na condição de língua franca ela vai sendo transformada o tempo inteiro, com esses contatos principalmente em locais em que ela não é primeira língua nem muito menos língua oficial, como é o caso do Brasil. Isso precisa entrar na sala de aula para que o aluno saiba que ele pode aprender inglês sem necessariamente pensar que não pode haver nenhuma interferência da língua materna. Todas essas questões que a gente já sabe. O preço que o inglês vai pagar e está pagando é de ele estar o tempo todo, como diz David Crystal, tendo bits and pieces de outras línguas, assim como também contaminando outras, no bom sentido. Uma coisa importante a se dizer é que, por conta desse contato multilíngue e de haver cada vez mais falantes não nativos, de diferentes backgrounds interculturais, o inglês na condição de língua franca, torna-se cada vez menos inglês. Isso é uma abstração, mas quanto mais ele se expande mundo afora, menos inglês se torna. O inglês padrão permanece, seja britânico, seja americano, seja australiano. Mas esse inglês que circula no mundo, na internet, está cada vez mais misturado, mais fluido, mais emergente, está cada vez menos inglês dentro desse construto tradicional. As minhas perspectivas para o inglês como língua franca, por conta das tecnologias de informação, é que ele vai permanecer, mas, cada vez mais, vai se contaminando no bom sentido, como já disse. Ele vai se transformando, se tornando cada vez mais emergente, misturado, híbrido, porque mais pessoas vão aprendendo esse inglês. Só que esse inglês é diferente do inglês circunscrito a um território. Eu vou fechar com uma frase daquele grande autor nigeriano, Chinua Achebe, que publicou muitos livros em língua inglesa, foi professor nos Estados Unidos. Ele tem um discurso que foi publicado sob o título The English language and the African writer e, numa passagem ele diz assim: “o inglês me chegou a partir de uma ancestralidade, goste eu ou não, ele chegou a mim e eu uso esse inglês para me comunicar com o mundo. Só que não é mais o inglês ligado à sua ancestralidade britânica, é um inglês que precisa se adaptar aos mundos e aos espaços africanos”. Se você pegar escritores indianos, nigerianos, quenianos, etc., que escrevem inglês, vocês verão que eles estão escrevendo nessa língua, mas não é o inglês que se espera. Se você pegar um texto de autor indiano, por exemplo, é perceptível a diferença. Se vocês observarem autores como Salman Rushdie, Arundhati Roy ou Aravind Adiga, são todos indianos. Eles escrevem em inglês, mas é um outro inglês, inclusive um inglês híbrido, misturado. Você percebe logo por que a língua não é só o que está ali no texto, a língua é muito mais que isso. Você percebe até na estrutura das frases, no vocabulário, na sintaxe, é bem diferente. Quanto mais você lê e eu tenho lido muitos autores indianos, mais perceptível é essa diferença. Esse é o preço que uma língua que se espalha precisa pagar. E eu acredito que ela se torna cada vez mais bonita, mais diversa, mais aberta à diversidade, à beleza de todos que podem contribuir. E aí, para fechar, a gente acaba com essa ideia de ownership, essa ideia de dono da língua. A língua não tem dono. Tive uma professora da UFBA que eu adorava, já falecida, Profa. Rosa Virgínia de Mattos e Silva, que dizia assim: “A língua é livre, ela não tem dono. Os linguistas tentam amarrar, amordaçar a língua e ela sempre escapa”. Ou seja, como diz uma autora sudanesa, radicada na Inglaterra, Nesrine Malik, e que escreve para o The Guardian, “a magia da língua está justamente em ela nunca poder ser amordaçada”. E isso é mágico mesmo. E essa língua, mesmo com todas as suas vestes coloniais, com todo o sangue que carrega na sua história, essa língua que está circulando hoje, ela está tão diversa e ela continuará sendo cada vez mais diversa. É isso que eu espero que aconteça.

 

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